Sobre meus contos

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quinta-feira, 27 de junho de 2013

O gigante acordou...

O gigante acordou! Levantou-se da cadeira com um berro tremendo e com duas passadas atingiu a porta. João era muito ágil e fugiu como um raio. O gigante andava depressa e estendeu a mão imensa para agarrá-lo, mas o garoto disparou para o topo do pé de feijão e desceu, atravessando as nuvens, com a maior rapidez.

Quando chegou ao jardim, João deu um fundo suspiro de alívio e olhou para cima, O gigante já vinha descendo atrás dele!

— Mãe! Mãe! – gritou João — Corra e me dê o machado!
A mãe de João trouxe correndo uma machadinha e ele começou a golpear o pé de feijão. O gigante chegava cada vez mais perto.
— Mãe, saia da frente! – João berrou e, com um último golpe, cortou o pé de feijão e pulou para trás.
O gigante despencou e veio ao chão com um terrível barulho, quebrou o pescoço e ficou estendido, morto, de uma ponta à outra do jardim. É claro que a pobre mãe de João ficou morrendo de medo, pois não era todo dia que um gigante despencava no jardim dela.
Texto do clássico João e o Pé de Feijão, qualquer semelhança com a realidade é "mera" coincidência.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Índice – Erros históricos dos novos escritores de Alta Fantasia e Fantasia Histórica

Introdução:



Li certa vez que pelo menos 90% dos aspirantes a escritores de fantasia ambientam seus romances na Europa Medieval ou em mundos alternativos nos moldes dela, não sei se tal estatística é exata ou apenas especulação. Porém, pelo que já li acredito que a percentagem esteja bem perto da realidade.

É normal que esses novos escritores cometam erros clássicos como o uso errado dos pronomes de tratamento e títulos nobilárquicos comuns aos medievais (Sir, Sua Majestade, Senhor, Conde e etc).

Entretanto, no presente artigo pretendo abordar erros mais sutis, frutos de desconhecimento histórico ou até propositais, servindo assim, como instrumentos proselitismo.

É algo polêmico, pois grande parte dos erros que serão listados, não são reproduzidos apenas por esses escritores, mas são ensinados nas escolas e universidades como "verdades históricas incontestáveis". Fatos criados, verdades manipuladas e mentiras descabidas que, seguindo a máxima de Joseph Goebbels, foram repetidas ao longo dos séculos e transmutadas em pseudo-verdades, levando qualquer contestador ao descrédito independente dos fatos e argumentos apresentados.

São questões centralizadas no período medieval e que levaram-no a ser conhecido, principalmente graças à pena de Francesco Petrarca, como "Idade das Trevas". Porém nem tudo que foi pintado de escuro foram trevas, assim como nem todo o iluminismo foi luz. É sobre isso que falarei, arriscando-me a receber as "terríveis alcunhas" de detrações.

Não tenho por objetivo doutrinar, pregar ou bradar verdades dogmáticas, aliás, nada no campo histórico é dogmático. Meu único objetivo é levar o leitor à reflexão, à curiosidade, ao estudo e as suas próprias conclusões. Enriquecendo a gama de informações para quem tem por objetivo ser um grande escritor um dia.

Não sou prepotente, nem um escritor, mas isso não me impede de apresentar fatos que contestam histórias que já são aceitas em consenso e que alguns sequer ousam imaginar o contrário.
O primeiro post será sobre a abordagem da religião na Alta Fantasia e na Fantasia Histórica. Um assunto extenso que pode levar algumas páginas, mas que tenho certeza que será interessante.

Obs: Pretendo usar como base apenas textos fantásticos que fazem alusões, claras ou veladas, à realidade.

Obs2: A imagem postada no início é para demonstrar o que pretendo fazer, nela há um claro erro, aliás bastante comum, a pintura mostra arqueiros com roupas de Templários, no entanto, os Cavaleiros Cruzados desprezavam o arco e a flecha por considerarem armas de covardes. E a própria Igreja através do Concílio de Latrão (1123) proibiu o uso da arbatela (besta). Eis um a frase de um cavaleiro que demonstra o que afirmo:


''Maldito seja o primeiro arqueiro. Ele foi covarde pois não ousava acercar-se do inimigo" (L. Gautier La Chevalerie, p.67 ).

São informações como essas que vocês podem esperar.
Aguardem.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Meu reino fantástico particular


Minha casa é um mundo fantástico. Tem um rei. Um rei de verdade que ama seus súditos e os trata com igualdade. Uma rainha, corajosa, guerreira, pronta sempre para oferecer sua vida pelo seu reino. Tem nós, súditos, vassalos, cavaleiros... Somos quatro. Um ainda é escudeiro, em pleno treinamento, aprendendo a usar todos os tipos de espadas que são necessárias na vida. Os outros três são fidalgos formados, um carismático, outro tímido, no entanto, são Nóbregas, e não há monstro mitológico capaz de detê-los. Como um bom mundo de fantasia medieval, temos nossa princesa, a única filha, a mais bela, nossos olhos sempre estão voltados para ela com amor, orgulho, e ciúmes é claro. Por último vem eu, cavaleiro, trovador, mais trovador que cavaleiro, mago, cronista, meistre, poeta, músico, domador de dragões, aracnofóbo, príncipe, sapo (se estou mais para sapo do que príncipe você decide), herói, vilão, e etc. Posso ser o que quiser, aliás, todos nós podemos. Basta uma caneta na mão.

Esse é nosso humilde reino. Sem muitas riquezas, porém com uma história de vitórias, conquistas, brigas, perdões e amor. Tentamos apenas mostrar que, apesar dos sofrimentos que já nos visitaram, das tristezas que infelizmente hão de vir, é possível sim, construir um final feliz.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Primeira imagem oficial da atriz Evangeline Lilly como a elfa Tauriel em O Hobbit

Sei, dirão que sou um tradicionalista que exige tudo segundo os canônes tolkianos. E confesso, eu o sou! O que não entendo tanto na produção (marvilhosas) de O Hobbit e da trilogia O Senhor dos Anéis, é que excluíram personagens magníficos, e agora fazem essa adição fora dos livros. Por exemplo, tiraram Tom Bombardil e Fruta D' Ouro, e pior, substituíram glorfindel (!), ora se pode-se adicionar novos elementos, por que raios excluir os das obras?

Espero que seja um bom personagem. Segue a notícia do http://www.sobrelivros.com.br



Foi divulgada com exclusividade pelo
EW a segunda foto oficial de O Hobbit: A Desolação de Smaug, retratando a elfa Tauriel, interpretada por uma das estrelas da série Lost, Evangeline Lilly.

Vale lembrar que essa personagem não existe nos livros de J. R. R. Tolkien. O filme estrará em todos os cinemas mundiais no dia 13 de dezembro desse ano.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Mapa do Almo [As Letras Históricas das Terras-de-Sempre]

Esse é o primeiro esboço que faço do Almo, terra fictícia do meu romance "As Letras Históricas das Terras-de-Sempre". É amador, feito no paint. Na verdade é apenas um teste para uma futura contratação de um bom desenhista. Mas, acredito que já ajude a situar-se na história.

terça-feira, 4 de junho de 2013

"Foi como matar dois filhos meus" George R.R. Matin sobre o Casamento Vermelho

Uma ótima entrevista do mestre Martin. Antes de reproduzi-la gostaria de destacar um trecho sobre a morte de Robb:

Assim como você se lamenta se um amigo está morto, você deve se lamentar se um personagem fictício é morto. Você deve se preocupar. Se alguém morre e você só ir buscar mais pipoca, é uma experiência superficial, não é?
É impressionante esse poder de envolvimento. Particularmente li essa cena várias vezes, no entanto, assistir à representação na TV, escutar as Chuvas de Castamere e ver a carnificina (mesmo que tenham tirado alguns importantes detalhes) abalou-me como se não soubesse o que aconteceria.

Ah, e parar a imagem e ver o brasão dos Manderlay entre os assassinados, proporcionou-me um "orgasmo nerd". hehe

Segue a entrevista:

O James Hilbert da Entertainment Weekly acabou de publicar uma matéria onde George responde essa pergunta. Ele já falou sobre isso diversas vezes mas, devido ao episódio de ontem, é bacana ler sobre isso de novo.

Ontem a noite, milhões de pessoas ao redor do mundo foram dormir mais tristes por conta da carnificina sem proporções que vimos na adaptação da cena mais chocante do livro A Tormenta de Espadas. A maior parte dessas pessoas foram pegas de surpresa porque, apesar de tudo, muita gente não fazia ideia do conteúdo que “Rains of Castamere” nos apresentaria. Se você é uma dessas pessoas, saiba que Martin vem recebendo cartas há uma década com leitores extremamente nervosos por conta disso. E é disso que ele fala na entrevista a seguir:



EW: Em que momento do processo de escrita dos livros você soube que mataria Robb e Catelyn?GEORGE: Eu sabia desde o início. Não no primeiro dia, mas muito cedo. Eu já disse em várias entrevistas que eu gosto que minha ficção seja imprevisível. Eu gosto que haja um suspense considerável. Eu matei Ned no primeiro livro e isso chocou muita gente. Eu matei Ned porque todo mundo acha que ele é o herói, e que com certeza ele vai entrar em apuros mas em seguida sairá dessa. A próxima coisa previsível é pensar que seu filho mais velho vai se rebelar e vingar o pai. Todo mundo espera isso. Então, imediatamente o assassinato de Robb tornou-se a próxima coisa que eu tinha que fazer.

EW: Já que A Song of Ice and Fire subverte tantas vezes as expectativas do leitor e evita estruturas narrativas de fantasia tradicionais, os fãs devem ter alguma esperança real de que esta história terá um final feliz? Como o “Boy”  disse recentemente em Thrones: “Se você acha que isso terá um final feliz, você não deve estar prestando atenção.”

GEORGE: Eu já disse várias vezes que eu pretendo fazer um final agridoce.

EW: Que tipo de reações você recebeu dos leitores ao longo dos anos sobre essa cena?

GEORGE: Extremas. Tanto positivas como negativas. Essa foi a cena mais difícil que já tive que escrever. Fica em dois terços na narrativa do livro, mas eu pulei ela quando tive que escrevê-la. Então o livro todo estava pronto, mas ainda faltava esse capítulo. Daí eu o escrevi. Foi como matar dois filhos meus. Eu tento fazer o leitor sentir que vivo os acontecimentos do livro. Assim como você se lamenta se um amigo está morto, você deve se lamentar se um personagem fictício é morto. Você deve se preocupar. Se alguém morre e você só ir buscar mais pipoca, é uma experiência superficial, não é?

Vestido de Roslin Frey
Detalhes do vestido de Roslin Frey
Vestido de Roslin Frey
Vestido de Roslin Frey


EW: Por que você acha que gerou uma reação tão poderosa? Robb não era um de seus “personagens com ponto de vista” nos livros, e Catelyn não era realmente uma pesonagem amada.

GEORGE: [Longa pausa] É uma pergunta interessante. Eu não sei se eu tenho uma boa resposta. Talvez a maneira que eu fiz. Há uma certa quantidade de mau agouro que leva essa história. É uma traição. É numa festa de casamento. Robb trabalhou pela paz e você acha que o pior já passou. Em seguida, isso surge do nada. Há também personagens secundários mortos. Em seguida, centenas de juramentados Stark são mortos. Não são apenas duas pessoas.

EW: Para mim, o fato de Robb e Catelyn serem uma família família torna tudo pior. E Catelyn sofreu tanto e perdeu tantas pessoas ao redor dela, e ela realmente acha que perdeu mais do que ela realmente tem (já que ela não tem certeza de que Arya, Bran e Rickon estão vivos). E então, isso acontece.

GEORGE: Ela também tem o momento de advogar. A vemos matando um refém. Ele não é um filho que o Frey valoriza particularmente*. Então, no final o blefe dela é vazio. E ela o faz. Ela vai até o fim. Há um certo poder nisso também.
[*na série mudaram o filho Frey para a esposa]

EW: Eu tenho certeza que eu sei a resposta para isso, mas: Alguma vez você já se arrependeu da cena?

GEORGE: Não, não como escritor. É provavelmente a cena mais poderosa nos livros. Custou-me alguns leitores, mas me ganhou muitos mais. Vai ser difícil para mim assistir a isso [na série]. Será uma noite difícil. Porque eu amo esses personagens também. E em um programa de TV que você começa a conhecer os atores, você também está terminando o relacionamento com um ator que você tem afeição. Richard
Madden e Michelle Fairley fizeram um trabalho incrível.

rains of castamere rains of castamere

EW: O que você diria para os leitores que estão chateados com a cena?
GEORGE: Depende do que eles estão dizendo. O que você pode dizer a alguém que diz que nunca vai ler o seu livro novamente? As pessoas lêem livros por diferentes razões. Eu respeito isso. Alguns lêem para o conforto. E alguns dos meus ex-leitores disseram que sua vida é dura, sua mãe está doente, seu cachorro morreu, e eles lêem ficção para fugir. Eles não querem ser atingidos na boca por algo horrível. Quando se lê um certo tipo de ficção, onde o cara vai sempre ficar com a garota e os mocinhos vencem no fim, isso reafirma a você que a vida é justa. Nós todos queremos isso às vezes. Há um certo desprendimento do sofrimento nisso. Então eu não desprezo as pessoas que buscam isso. Mas isso não é o tipo de ficção que eu escrevo, na maioria dos casos. Certamente não é o que Ice and Fire é, que tenta ser mais realista sobre o que é a vida. Ele tem alegria, mas também tem dor e medo. Acho que a melhor ficção captura a vida em toda a sua luz e  trevas.

EW: Um dos meus elementos favoritos da cena é você apresentar essa ideia do “sal e pão.” – Nós aceitamos isso como leitores – ok neste mundo de fantasia as pessoas não prejudicam-se, uma vez elas que comem o pão e sal de um anfitrião. E então você quebra a sua própria regra. É como se estivesse batendona cabeça do leitor  por ser tão dura – “É claro que eles não vão seguir essa regra boba o tempo todo”.
GEORGE: Roubei isso da História. Leis de hospitalidade eram reais na sociedade da Idade das Trevas. Um anfitrião e convidado não estão autorizados a prejudicar uns aos outros, mesmo que fossem inimigos. Ao violar essa lei, a frase é “estão para sempre condenados”

EW: E sobre o Casamento Vermelho em si? É com base em História também?

GEORGE: O casamento vermelho é baseado em um par de eventos reais da história escocesa. Um deles era um caso chamado The Black Dinner. O rei da Escócia estava lutando contra o clã Black Douglas. Ele estendeu a mão para fazer a paz. Ele ofereceu ao jovem conde de Douglas passagem segura. Ele veio para o Castelo de Edimburgo e teve uma grande festa. Então, no final da festa, [os homens do rei] começaram a batucar em um único tambor. Eles trouxeram um prato coberto e colocaram na frente de Earl e revelaram que era a cabeça de um javali negro – o símbolo da morte. E assim que ele viu, ele sabia o que significava. E então eles os arrastaram para o pátio, para morrer. O maior exemplo foi o massacre de Glencoe. O clã MacDonald passou a noite com o clã Campbell, com as leis da hospitalidade supostamente aplicadas. Mas os Campbells levantaram-se e massacraram todos os MacDonald que poderiam ter em suas mãos. Não importa o que eu invente, há coisas na história que são tão ruins quanto, ou até piores.
Leia o original em inglês clicando aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Memórias de um Cariboca

Barão Rodrigues e seus jagunços avançavam ainda mais pelas matas de Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte. Na noite anterior alguém tinha atacado seus animais e incendiado a lavoura, por isso embrenhavam-se no meio das árvores retorcidas do cerrado.

— Vamos pegar esses malditos e mostrar que ninguém deve ser meter com o Barão — ele tinha o estranho costume de falar de si mesmo na terceira pessoa.

— ‘nhor, não tem rastro algum, já passei pelas redondezas tudo e só vejo marca das chamas e nada mais. — Disse caboclo Chico, um escravo que sempre morou na região. Barão ordenou-o que participasse das buscas por saber que ninguém mais conhecia a mata e seus segredos igual a ele.

— Então quer dizer que saíram voando?

— Não sei ‘nhor, masé estranho. Num deixaram marcas. De todo jeito essa sempre foi uma terra de coisa estranhas.

— Não me venha com essas suas superstições, trate de achar por onde esses bandidos foram ou verá do que um Rodrigues é capaz. — Acelerou sua montaria até seus homens que cortavam o mato para avançar.

— Pai, já está escurecendo, não seria melhor voltarmos? — Falou o jovem Tadeu Rodrigues que até então apenas observava tudo calado. Era esguio, tinha a voz doce e o rosto carregado de espinhas com um ralo bigode.

— Não! De forma alguma volto sem que peguemos quem ousou atacar minha fazenda. Como respeitarão o Barão Rodrigues se este não for capaz de fazer justiça em seu próprio território? Largue de frescura e vamos em frente!

Depois do jovem Tadeu, a baronesa Maria Luiza deu a luz a cinco meninas, e mesmo sendo o único filho homem, ele não era muito querido pelo rude pai. Certo dia o Barão passava perto da senzala quando escutou caboclo Chico chamando seu filho:

— Aprochegue-se Tatá, que vou contar mais uma história das boa.

— Tatá? Que intimidade é essa? — Rodrigues saiu puxando Tadeu pela orelha e apontando para o caboclo ordenou a um jagunço:

— Leve esse escravo bocudo para o tronco para aprender onde é o lugar de um negro!

— Tadeu chorou escondido enquanto escutava os gritos do velho no pátio, açoitado por causa de um simples apelido, aliás apelido esse que o jovem adorava, pois segundo o caboclo, Tatá na língua indígena significava: fogo. No mesmo dia Tadeu foi arrastado pelo pai até o Bordel da Amélia onde o Barão bradou para uma mulher ruiva:

— Esse menino está delicado por demais, são os mimos da mãe, transforme-o em homem e não me apareçam com nenhum bastardo.

Apesar de estar prometido para casar no próximo ano, para o pai o jovem continuava afeminado. Mas, o velho escravo conhecia o valor de Tadeu, certa vez enquanto ensinava-o a dança de pula-fogueira, o menino caiu nas chamas, desesperado caboclo Chico queimou-se para salvá-lo e ficou impressionado que Tatá não ficou sequer com uma marca do fogo. Guardaram aquele segredo, do contrário, o escravo iria parar no pelourinho.

Era visível que o pai não suportava o jeito do filho, o rapaz preferia ler poesias do que sair para caçar, escrever do que a boêmia, e ficar com as irmãs ao invés de praticar tiro com o pai. Por isso quando partiram, Barão Rodrigues exigiu a presença do filho:

— Faz cinco anos que te larguei na Casa da Amélia para que deixasse de ser uma criança, agora você virá comigo e se tornará um homem de verdade. Aprenderá a matar!

— Mas, pai…

— Pegue suas coisas, partiremos ao amanhecer.

***

Tinha escurecido e todos estavam cansados de vagar pela mata quando o caboclo falou:
— ‘nhor, é melhor a gente acampá.

— Você está certo, Chico. — Antes que o Barão desse a ordem Pedro falou:

— Meu senhor, aqui é um bom lugar para acampar, mas se me permitir formarei um grupo de batedores e avançaremos, pois precisamos garantir a segurança.

— Uma ótima ideia, Pedro, e muito corajosa. Pegue os homens que precisar e faça isso. — O jovem saiu chamando alguns nomes que o seguiram prontamente. Era possível ver a raiva no rosto de Tadeu enquanto olhava Pedro sumir na escuridão. Todos comentavam que o rapaz era um filho bastardo do Barão com Amélia, ele nunca admitiu tal fato, aliás ninguém nunca teve coragem de perguntar, no entanto, ele sempre tratou o jovem melhor que o próprio filho legítimo. Pedro era o contrário de Tadeu, alto, forte, corajoso, galanteador, mas era um bastardo, e esse pensamento consolava o jovem herdeiro.

Montaram o acampamento, fizeram uma fogueira e por horas ficaram escutando as histórias do caboclo. Um dos que montavam guarda gritou:

— Senhor, vem vindo alguém, acho que deve ser o Pedro. — Quando todos se levantaram os tiros começaram. De dentro da mata ouvia-se disparos na direção do acampamento. Tadeu tentou correr, mas foi atingido no abdômen, caboclo Chico veio em seu socorro, os homens do Barão foram caindo um a um, já que não conseguiam ver onde estavam os inimigos, Rodrigues foi o último, levou um tiro na perna e foi se arrastando em direção do filho e do escravo. Nesse momento os inimigos saíram da mata, e o líder deles riu com o olhar de espanto dos sobreviventes.

— Queimem os corpos. — Ordenou Pedro aos seus homens.

— Você? — Gemeu o Barão — Mas, você é meu filho. Eu o reconheci, o tornei meu herdeiro! — Gritou e depois olhou com vergonha nos olhos para Tadeu, que parecia não acreditar no que ouvia. Pedro sorrindo, agachou-se ao lado do rapaz e sussurrou em seu ouvido:

— Você sempre foi uma vergonha para seu pai. Não achou que ele deixaria que você arruinasse tudo que ele conquistou?

Tadeu chorava, não mais de fraqueza, derramava lágrimas do mais puro ódio, assim reunindo suas últimas forças partiu para cima de Pedro, mas estava baleado e era fraco, levou uma grande surra enquanto todos gargalhavam.

Barão estava ajoelhado, ainda incrédulo. Tentou pegar uma arma que tinha ficado caída no chão, porém Pedro atirou em sua cabeça e falou com orgulho:

— Agora, sou o novo Barão!

Tadeu estava desesperado, mesmo sendo rejeitado, amava o pai. Com crueldade no olhar, Pedro foi até ele e incendiou suas roupas. O jovem começou a rolar no chão, gritava tentava apagar o fogo, mas não conseguia. Caboclo Chico tentou ajudá-lo e foi baleado, caiu encostado em uma árvore. Pedro e seus homens riam com a cena. Mesmo fraco Tadeu corria, porém as chamas aumentavam. O jovem era mais resistente do que imaginavam e a morte parecia não quere-lo. Ficou muitos minutos sendo consumido pelo fogo.

Não gritava mais.

As expressões de diversão dos presentes viraram espanto e depois medo. A luz vinda do corpo em combustão era tão forte que ninguém mais conseguia olhar por muito tempo. O corpo permanecia em pé, sem qualquer ruído. Caboclo Chico por um momento esqueceu a dor do ferimento e olhava aterrorizado. As chamas queimaram de uma forma que não se via mais qualquer vestígio de Tadeu, existia apenas um fogo parado e flutuante no meio da mata.

Pedro tremia, não sabia o que fazer, e quando finalmente correu para sua montaria, sendo imitado por seus homens, uma grande labareda começou a mover-se em volta do acampamento, era rápida como o vento, jagunços começaram a atirar desesperadamente, no entanto, em alguns minutos todos corriam e rolavam tentando apagar o fogo que consumiam suas carnes. Queimavam rapidamente ficando apenas carcaças estiradas no chão.

Assim como o Barão foi deixado para morrer no final, Pedro ficou sozinho, caído, implorando misericórdia enquanto a uma língua de fogo aproximava-se. Ele começou a queimar lentamente, perna por perna, braço por braço, tronco e cabeça.

Chico ainda estava encostado na árvore assistindo a tudo. Também foi tomado pelo pânico quando o fogo se aproximou movendo-se como uma grande serpente. E, diante do velho escravo, as chamas transformaram-se na figura de um homem, quase transparente, que estendendo a brilhosa mão tocou-o sem queimar. O ferimento do escravo foi curado na hora e uma voz falou-lhe:

— Adeus meu velho amigo. — Ainda com medo, mas sorrindo, o caboclo respondeu:

— Adeus Tatá… Boitatá!