Sobre meus contos

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domingo, 21 de dezembro de 2014

O som da liberdade

O Som da Liberdade

por Jefferson Nóbrega


Em uma rua silenciosa de uma cidade silente. Em um país mudo de um planeta taciturno; um homem chamava a atenção.

Quando ele passava as pessoas erguiam a cabeça e baixavam novamente. Pode não parecer nada espetacular, mas era; pois existiam pessoas que nasciam e morriam sem sequer olhar nos olhos de alguém.

Ele se destacava na paisagem de prédios cinza e árvores secas, suas vestes brancas com tons azuis eram novidades onde o marrom mórbido dava o tom das roupas. Seus sorrisos e movimentos leves assustavam comparados à marcha mecânica que caracterizava todos. A barba e os cabelos grandes mostravam-se como uma grande novidade diante dos rostos perfeitos e iguais.

— Bom dia. — Parecia não se importar com a falta de resposta. Também não demonstrava espanto com a rua engarrafada sem sequer uma buzina apitar.

— Bom dia — repetiu para o jovem sentando em uma cadeira na calçada de uma lanchonete, segurava um cardápio por costume, pois não importando o estabelecimento os pedidos eram padronizados.

— Bom dia, eu sou o Barbudo. — apresentou-se com ainda mais empolgação. O jovem ergueu os olhos e baixou novamente. Não diferente das pessoas que viravam os pescoços e depois olhavam para frente seguindo com suas passadas meticulosas. De cabeça baixa o rapaz parecia fazer um esforço tremendo e, como uma criança que aprende a falar respondeu:

— Bom dia — em um tom de voz lento e fraco. — Sou Ed3406, completou.

— Sei que você sabe falar, mas não tem costume. Assim como todos sabem viver, mas não conseguem. — Mais uma vez os olhos do garoto se levantaram e arregalaram. Não para o misterioso homem barbudo, mas para a patrulha que parou na calçada. O jovem de prontidão ficou de pé em posição de sentido e emudeceu.

Três soldados desceram em uma marcha portando armas, “Guardiões da Ordem”, eram chamados. Tinham a missão de caçar os pecadores, ou seja, todos que desafiavam a ordem vigente.

— Bom dia senhores. — Eles também não respondiam. Chegaram acertando coronhadas e mesmo com o homem no chão não pararam. O Barbudo levantou-se e jogou-se sobre o rapaz que, permanecia como uma estátua e caiu como uma. Aproveitando a oportunidade, antes de ser arrastado pelos soldados, Barbudo colocou algo dentro do terno cinzento do garoto. “Você tem o dom, use-o”, sussurrou em seu ouvido.

Ed permaneceu parado, ereto, sem expressão e, não elevou o olhar nem quando os soldados fuzilaram o Barbudo com suas armas silenciadas, jogaram-no no porta-malas e saíram, nem de uma cantada de pneus o homem foi merecedor. A viatura não emitiu qualquer som.

Assim o garoto foi caminhando em direção de sua casa, passos firmes, todos dado na mesma distância, vistas presas no solo. O mundo era soturno, entretanto, algo tinha mudado. Um barulho tremendo agora ecoava em sua mente.

Entrou em seu condomínio. Todos os edifícios tinham trinta e um andares, ele apertou o número cinco, andar padrão de todos com  nomes iniciados com a letra “E”. Entrou em seu apartamento. Quando tirou o paletó algo caiu. Ficou paralisado, pois nunca tinha acontecido isso. Só aquele fato abalava toda a ordem da sua vida. O barulho na sua cabeça foi aumentando de tal forma que ele caiu ajoelhado, apertando as têmporas, por fim não aguentou e gritou.

Foi arrebatado por sensações novas, primeiro sentiu um alívio e pegou-se gargalhando. Depois foi tomado pelo pânico, sabia que seu grito chegaria longe naquele mundo melancólico. Logo os Guardiões estariam na sua porta. Correu. E isso também foi estranho, suas pernas jamais realizaram movimentos tão intensos, sentiu-se a pessoa mais rápida do mundo.

Quando passou a toda velocidade as pessoas apenas levantaram as cabeças e baixaram em seus gestos automáticos. Por fim, cansado sentou-se no banco da praça. Só então notou que ainda segurava o misterioso objeto.  Era em formato cilíndrico, fino, tendo buracos em sua extensão. Mexeu por muito tempo naquilo sem encontrar qualquer utilidade até que, sem saber o motivo levou-o à boca e soprou forte. O apito agudo atraiu a atenção da multidão que passava. O som foi tão diferente que pela primeira vez eles olharam e fixaram-se dessa forma.

Ed novamente entrou em desespero e fechou os olhos buscando o silêncio em que tanto tempo vivera. Quando percebeu, soprava o objeto novamente, mas dessa vez de forma serena. Entendeu que o som mudava de acordo com os buracos que tampava com os dedos. Foi nesse momento que o barulho em seu íntimo ganhou forma e organizou-se. Ao finalmente criar coragem para olhar para si mesmo, contemplou que fazia sons ritmados combinantes entre si e muito bonitos. As pessoas aglomeram-se em volta dele e ao ver isso ele pô-se em pé sobre o banco.

Teve mais medo ainda quando que seus pés passaram a acompanhar o som e, ao ver sorrisos espalhando-se pela praça esqueceu-se de tudo deixando-se levar pela sonoridade.

Um silêncio súbito reinou quando gritos partiram do outro lado da rua:

— Pecadores!

Achou aquilo interessante, pois seus acusadores tinham rompido o mutismo de suas vidas para atacá-lo. Atrás delas vinha um batalhão de Guardiões. Vendo isso algumas pessoas assumiram a velha postura de estátuas.

— Vocês sorriram e experimentaram a alegria. Estão prontos para voltar à tristeza? — Ed Gritou.

O espanto não pode ser escondido quando um novo som surgiu. Alguns homens pegaram as latas de lixo e passaram a bater nas tampas de maneira ritmada, dessa forma Ed passou a soprar seu objeto de acordo com o o ritmo.

Os Guardiões tentaram avançar, mas era tarde demais. Uma buzina de carro ecoou. Alguém gritou de cima de um dos prédios. Os pássaros passaram a emitir lindos sons e soldados ficaram sem reação. No entanto, o líder da patrulha engatilhou e avançou sozinho, mirando na cabeça do garoto que pulava sobre o banco; atirou.

Atirou, mas não o acertou. No momento em que seu dedo apertou o gatilho um barulho vindo do céu o assustou. As nuvens emitiram um terrível estrondo. E ao escutar o próprio céu rebelando-se, admitiu que nada mais podia ser feito.

Foi até o garoto, fazendo uma tremenda força disse:

— Pecado.

— O pecado leva à morte, mas veja, essas pessoas encontram a vida. — Ed respondeu.

— Não entendo, o que é isso tudo?

— Música! Não sei sequer o significado da palavra, mas está dentro de mim.

Subindo no teto da viatura bradou:

— Isso é música meus amigos, isso é vida!

Estava feito, o mundo não foi mais o mesmo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Tudo por serem poetas

Penso em parar de escrever, especialmente poemas e poesias,

Notei que os poetas não são muito agraciados pela vida,

Especialmente os homens,

Perdem-se na boemia e nos sofrimentos dos amores,

Amam intensamente, mas no final é a solidão que abraçam,

Arquitetos de palavras no fim lágrimas os calam,

E não é dor física que temo,

É o fardo de conhecer o íntimo dos sentimentos, sem conseguir vivê-los da forma que escrevo,

A vida é traiçoeira com os trovadores e a arte acentua suas dores,

Suas aflições não são discretas,

Ao coração são submissos,

Tudo por serem poetas;

Ou são poetas por isso?

domingo, 14 de dezembro de 2014

A Carta


RemetenteJefferson Nóbrega
Destinatário: Futuro amor da minha vida

Brasília 29/08/2014



Futuro amor da minha vida, como você está? 

Escrevo por que não vejo a hora de te encontrar, de ver seu rosto; conhecer-te. Aliás, eu já posso até tê-la visto, mas sabe como é, a vida tem nuances que nos cega às vezes. Peço que perdoe-me.

Não sei como és, porém quero logo estar contigo. Não demore por favor, o tempo urge! Cada dia que passa são momentos que perdemos. Agora mesmo poderíamos está aqui no sofá, você com a cabeça em meu colo, perdendo-se em lágrimas por causa do filme enquanto faço pose de durão e derreto-me por dentro. 

Fico imaginando como você é, acho que também pensas o mesmo. Sabe, provavelmente já nos encontramos e até gostei de você, algo deve ter dado errado, mas vamos nos topar novamente. 

Você não deve ter notado que nascemos um para o outro por causa dos sofrimentos que já te causaram, isso gera medo e cega, entretanto, não é o fim. Esse escudo em volta do coração é normal, é uma proteção necessária, porém não passe a vida escondida atrás dele, pois isso não é viver.

Meu bem, temo que nessa demora eu acabe sendo iludido e levado por outra para no futuro descobrir que ela não era você. Por isso peço novamente, não demore mais.

Não vejo a hora de olhar em seus olhos, de sentir seu perfume, de arrumar uma mecha de cabelo, tocar seu queixo, acariciar seu rosto; dar mordidinhas na orelha. Agora mesmo eu poderia te fazer cócegas. Você tem, né? Adoro fazer isso. Para muitos é besteira, mas são essas coisas que torna tudo mágico.

Daremos aquele abraço em que o mundo simplesmente apaga-se. Irei beijar um lado da sua bochecha, depois o outro, seu queixo, tocar nossos narizes, até que os lábios se encontrem. Sei que você já sente como vai ser, nesse momento isso já te faz sentir muitas emoções. Como saberá que sou eu? Você irá saber. E se lendo isso algo está acontecendo aí dentro, palpitações mais rápidas, emoções resgatadas, perca de fôlego, veja isso como um sintoma e pense: Será eu? Sim, é você.

Venha para os meus braços, pois é tolice continuar procurando-me em outros, assim como não posso mais fingir que não preciso de ti, que sou feliz com outras, quando somente você importa.

Escutemos nossos corações. Eles podem parecer idiotas pelas escolhas erradas que fizeram, mas não os culpemos, no fim a única coisa que eles queriam era encontrar um ao outro.

Até breve.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Sobre escolher demais no amor...

Pensamentos corroeram minha mente por toda a madrugada. “Você escolhe demais”, escutei essa frase de três mulheres em um único dia. Ditas em tons acusatórios, como se eu tivesse cometido um crime de lesa-majestade. Não seria um direito meu “escolher demais”? “Ah, mas quem escolhe muito fica sem nada”, é a réplica genérica. “Ficar sem nada” é um risco. 

Todos que amam estão propensos à rejeição e solidão, a vida sem perigos não é vida. 

O problema desse tipo de inculpação é que jogam-me ao estereótipo “só quer peitos e bunda”. Geralmente redarguo: “Leste um dos meus contos, poesias ou poemas?”, se a resposta for não, finda-se tudo. Como ousam julgar os sentimentos de um escritor ignorando seus escritos? Mesmo que sejam ruins. É por sua pena que seu coração confessa-se e requesta-se com toda sinceridade. Se lessem saberiam que imputar-me o gosto por turbinadas é idiotice, afinal todas as minhas protagonistas são descritas como esguias, magrelas, selvagens e acima de tudo, naturais. Eu escolho demais, isso é fato. 

É pecado procurar por alguém especial? Alguém que leia Shakespeare pela manhã, Poe à noite e tenha pesadelos com Lovecraft? Que possa construir uma vida com a beleza de Tolkien e os defeitos de Nelson Rodrigues? Que simplesmente saiba abrir seu coração, seja com palavras, ações ou papel? 

Escolher não é errado, o engano está na utopia, é preciso encontrar esse limite. Ao contrário das acusações não tenho muitas ambições amorosas. Busco apenas uma companheira que, mesmo enraivada, compreenda caso eu levante em plena madrugada para ler mais uma página ou escrevê-la.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Welcome to the Hotel California

Esse conto faz parte de um desafio que fazemos no grupo “Escritores Desconhecidos” no facebook onde a galera aqui do ONE tem se reunido. Junte-se a nós!
Os trechos da música do Eagles ficarão em itálico.

Deixo a música traduzida caso queira conferir a letra antes:

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Hotel-California-19-kevinandamanda

Os faróis de um Mitsubishi conversível romperam a escuridão da estrada, onde antes reinava apenas o neon azul da placa do hotel. Felder estacionou meio relutante, pegou o celular, mas não tinha sinal. Passar a noite ali ou dormir no carro eram as únicas alternativas. Abriu a carteira e não gostou do que viu. “Droga! Esses hotéis que ficam no meio do nada custam o olho da cara”, pensou.

Fechou a capota, abaixou o banco, ligou uma música do Eagles e para relaxar acendeu um baseado. Estava quase dormindo quando sua visão foi preenchida por uma jovem parada na porta do hotel. Era maravilhosa. Seus cabelos loiros iam até a cintura, mesmo a distância os olhos verdes brilhavam, o corpo era esbelto e ficava muito atraente no vestido branco. Ela sorria. Não um sorriso normal, mas algo que preenchia o vazio que existia dentro dele, que o levava a pensar nos momentos mais maravilhosos da vida, ela também segurava uma vela o que lhe dava um ar angelical.

Rapidamente desligou o som pegou a carteira, mas quando abriu a porta ela tinha sumido.

— Seja bem vindo ao Hotel Califórnia, senhor. — Falou o recepcionista quando ele entrou no recinto. Era um homem negro, de terno e um chapéu que tampava os olhos. — Deseja ver nossos preços?

—O senhor viu uma moça loira? — Apenas isso importava naquele momento para Felder.
— Ah, fala de Laura. Sim, ela está no baile. Encantadora não?

— Laura… Baile?

— Todos os anos no “Dia de Todos os Santos” fazemos um baile à fantasia para os hóspedes, se o senhor for ficar encontrará no guarda-roupa algumas fantasias.

Felder subiu as escadas conforme indicara o recepcionista entrando em um longo corredor. A decoração era clássica, papel de parede listrado em cores mornas e com várias fotografias de pessoas em molduras de madeira. Observou um a dessas; mostrava quatro homens que pareciam serem grandes amigos, sorriam abraçados em frente a um dos quartos do hotel. Uma legenda falava: “ Glenn Frey, Don Henley, Bernie Leadon e Randy Meisner.”

Leu uma pequena placa: Quarto 112. Pegou as chaves, notou que ao lado da porta havia o que fora um retrato, estranhamente as pessoas tinham sido recortadas ficando apenas duas silhuetas na moldura.

— Welcome to the Hotel California — sussurram diversas vozes no corredor vazio. O arrepio fez com que abrisse a porta do quarto rapidamente e se trancasse.

Atribuindo as vozes às alucinações e à qualidade do cigarro de maconha que comprou com alguns brasileiros, ele se acalmou, abriu o armário e escolheu a fantasia de Zorro.

Depois de um banho gelado saiu do quarto mais tranquilo, dessa forma observou como o local era belo e preenchido por uma atmosfera de mistério.

— Welcome to the Hotel California. — Os sussurros ecoaram novamente.

— Such a lovely place. — Felder pegou-se respondendo.

— Any time of year you can find it here. — As vozes responderam em um tom de sorriso.
Em prol de sua sanidade ignorou isso. Não se importava; apenas a linda mulher ocupava seus pensamentos e desejos desde que chegara ao local.

Desceu seguindo o som de uma valsa, dobrou um corredor e deparou-se com um grande salão de festas, estava lotado. De início ficou parado na porta impressionado, pois o pequeno prédio visto de fora de forma nenhuma demonstrava ter um ambiente tão enorme. Luminárias douradas pendiam no teto, cortinas brancas estavam nas paredes e por todo lado pessoas fantasiadas dançavam felizes, era como se tivesse sido transportado para outra época.

E lá estava ela. Dançando com vários rapazes em volta. Felder foi ao bar e pediu:

— Por favor, traga-me vinho.

— Desculpe, nós não temos essa essência desde mil novecentos e sessenta e nove.

— Hã? — Mil novecentos e sessenta e nove? Vocês precisam rever seus fornecedores. Então me traga um whisky . — Ele sequer olhava para o atendente, estava completamente fixado nos movimentos dela e no olhar retribuído sempre que ela executava um gracioso giro.

— Ela é inebriante, senhor. Rouba completamente o juízo. Aconselharia não se deixar envolver.

Felder bebeu a dose em um gole e foi andando, os dois se olhavam de forma tão intensa que um vácuo de pessoas foi aberto quando se encontraram. Ele tocou a mão dela e ela não resistiu quando foi segurada pela cintura. Felder sentiu o perfume e cada parte do corpo de Laura quando se abraçaram. Ela podia escutar as batidas do coração dele. Trocaram poucas palavras e insignificantes para o momento, os lábios eram imã e metal e assim beijaram-se carinhosamente, apaixonadamente, intensamente e por fim, fogosamente.

Sequer percebam quando saíram do salão, entretanto, agora estavam no quarto dele, despidos em um prazer avassalador que arrancava a noção de vida fora dali. E assim passaram dias, semanas, meses ou talvez apenas horas; não sabiam, sequer lembravam-se do tempo.

Ele tinha acabado de tomar banho e se vestia quando escutou a confusão. Homens arrastavam Laura escada abaixo. Saiu em desespero na captura e encontrou uma confusão generalizada. Pessoas corriam por todos os lados, impressionou-se com a quantidade de gente ali, certamente não tinha espaço suficiente para todos. De onde saíram? Não ia perder-se em indagações quando a mulher da sua vida corria perigo.

— Me soltem! — Escutou Laura gritando enquanto empurrava as pessoas na escada para conseguir espaço para passar.

— É nossa chance de sair, Laura. — Alguém respondeu.

— Matem a besta! — Um homem gritou logo atrás de Felder.

Ele finalmente venceu a multidão e chegou à portaria. Laura correu e o abraçou. Sentiu um alívio inigualável seguido de raiva. Parou para ver o que ocorria. Quatro homens estavam com facas cercando o recepcionista que sorria por baixo do grande chapéu.

— O que está acontecendo? — Perguntou.

— Vamos sair daqui. — Pediu Laura.

— O que está acontecendo?

— Dia de Todos os Santos, é o único dia em que pode haver libertação. Glenn , Don Henley, Bernie e Randyr vão tentar.

— Libertação de quê, Laura?

—Vamos sair daqui.

Felder cessou os questionamentos quando a briga começou. O recepcionista não esboçava reação, pelo contrário, segurava duas facas de braços abertos em uma posição provocadora e ostentosa. Os homens avançaram, começaram a esfaqueá-lo, eram os maiores e os mais fortes da multidão e mesmo com o recepcionista no chão continuaram o massacre. Por fim, se afastaram e a multidão gritou.

Quando o primeiro tentou passar por ele em direção da porta uma faca cortou-lhe a perna e em seguida entrou no coração. O recepcionista levantou. O corpo desfigurado estava se curando. Tirou o chapéu e Felder deu um passo para trás junto com toda a multidão.

Não havia face, onde devia existir os dois olhos, tinha apenas cicatrizes. Rapidamente com as duas facas ele derrubou os outros três. Os corpos deles começaram a desintegrar na frente de todos, virando uma fumaça negra, sendo tragada pelo recepcionista e logo em seguida cuspida em uma moldura vazia.

— Você está certa vamos sair daqui.

Buscou a mão de Laura, porém ela não estava mais ali. Virou-se para procurá-la, mas para sua surpresa o monstro recepcionista estava parado na sua frente com as facas na mão.

— Se você quiser pode ir embora, Felder. Não te impedirei. — Disse sorrindo.

Com medo e os olhos fixos nas facas ele deu um passo em direção da porta. O recepcionista não se moveu, no entanto, falou:

— Você vai deixar ela? — Apontou para Laura.

— Laura, venha!

— Desculpe, não posso.

— Por quê? — Laura se aproximou dele, acariciou seu rosto e falou:

— Nós todos somos prisioneiros aqui, por nossa própria conta.

Ele não entendeu, porém não teve tempo de perguntar. Uma faca atravessou-o. Gemeu, sentiu sua vida escorrendo, porém o mais doloroso é que era Laura que  segurava a arma. Ela chorava, observou.

O recepcionista se aproximou:

— Você pode registrar a saída quando quiser, mas você nunca vai partir.

Felder viu a luz da vida sumir e rendeu-se.

No outro dia, um carro parou em frente ao hotel. Carla estava registrando-se quando seus olhos encontraram outros azuis. Ficaram um tempo olhando-se e ela deixou escapar um sorriso.

— Welcome to the Hotel California. — Teremos um baile à fantasia hoje à noite, no guarda-roupa encontrará algumas. Podemos contar com sua presença? — Meio sem graça ela respondeu:

— Claro que sim, adoro bailes. — Quando ele saiu ela perguntou:

— Ele trabalha aqui?

— Não, é um hóspede fiel. Aqui está moça, quarto 112, boa estadia.

— Obrigada.

Entrou pelo corredor e observou a decoração. Ao abrir a porta parou diante de um quadro. Era ele, o lindo homem que conversara com ela na recepção, na foto ele abraçava uma loira encantadora e a legenda dizia: “Felder e Laura”.

— Aff casado, só podia ser.

 Welcome to the Hotel California. — Vozes sussurradas vindas dos quadros causou pânico nela paralisando-a. No entanto, assustou-se ao responder sem saber como:

— Such a lovely place. — As vozes em som de sorrisos disseram:

— Any time of year you can find it here.

Ela abriu a porta rapidamente, trancou-se, respirou fundo e para tentar esquecer tal loucura abriu o guarda-roupa e começou a escolher uma fantasia.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Linha 66.6 – João, O Motorista

João tinha vinte anos como motorista de ônibus e cinco na linha 66.6, todos os dias às 03:00 da manhã saia da rodoviária do Plano Piloto tendo como destino a Ceilândia, cidade satélite de Brasília. O “corujão” como são chamados os ônibus que trafegam pela madrugada, levava geralmente trabalhadores noturnos e curtidores da noite da capital do país.

João já se acostumara com o horário e até gostava, geralmente tinha uma amizade com os passageiros por serem na maioria das vezes os mesmos.

Suzana, um travesti, era a mais animada e como sempre entrou fazendo barulho:

— Boa noite motora, é hoje que finalmente vou pegar na marcha? — Com bom humor João respondeu:

— Não mesmo Suzi.
Em seguida entraram os garçons Cláudio e Luis, os vigilantes Cabeça, Gordo e ET, um jovem calado que parecia ser estudante, mas que Suzi dissera que era gogo boy, e assim o ônibus ia tendo os lugares preenchidos na rodoviária, com exceção de dois. Toda a noite era assim e isso assustava João. O coletivo tinha cadeiras duplas no lado direito e uma fila de cadeiras únicas no esquerdo e, era nele que sempre dois lugares ficavam desocupados, o terceiro, e o último que era o motivo de seus arrepios.

As pessoas até sentavam no terceiro, mas levantavam rapidamente. “Ele é ruim, é como se você estivesse sentada sobre algo”, dissera dona Rosângela. “É estranho João, mas não é confortável”, explicara Mario, um policial que pegava o ônibus de vez em quando. Só Ricardinho ficava uma viagem inteira lá.

O último João não precisava perguntar o motivo de não ser ocupado logo na rodoviária, pois alguém sentava nele. Diariamente  no ponto em frente à Catedral subia no coletivo um homem de, sobretudo, capuz até os olhos, barba desgrenhada até o peito, não falava, sentava-se no último lugar, puxava um caderno e começava a escrever.

— Ele frequenta os inferninhos do Conic. — Afirmara Suzi em sussurro referindo-se aos bares barra-pesada do Setor de Diversões Sul de Brasília.

“O Mago”, assim João apelidou-o, pois ninguém sabia seu nome e sequer tinham conseguido arrancar uma única palavra dele, exceto quando ficava parado em pé ao terceiro banco murmurando algo, isso definitivamente deixava as pessoas com medo.

Entretanto, o lugar vazio e o Mago não eram os únicos mistérios que João tentava arrancar dos pensamentos e que sempre acabavam assombrando-o antes do sono. “O último ponto da estrutural” era o que mais o intrigava.

Após deixar o Eixo Monumental o ônibus seguia para a via Estrutural e lá havia um Ponto de Descida, ou como dizem os candangos, uma Parada. O local era totalmente deserto, cercado por matos, sem qualquer iluminação e já fora palco de crimes e desova de corpos. Todos os dias alguém apertava o sinal de descida e ele parava no local com temor, pois ali era fácil ser vítima de assalto, abria a porta e uma menina loira descia; isso o intrigava, pois nunca a via entrando e pior, os passageiros reclamavam por ele parar e não descer ninguém.

— Droga João — disse o cobrador — toda vez você para nesse lugar sem ter ninguém pra descer, tá de sacanagem?

— Tá maluco? A menina loira acabou de descer.

— Menina loira? Voltou a tomar rebite?

— Vá se fuder Marcelo! Tem uma menina que sempre desce aqui, ela acabou de descer. — João disse irritado.

— O nome dela é Melissa — Ricardinho gritou do terceiro banco onde estava sentado. João falou para o cobrador:

— Tá vendo idiota! O Ricardinho a viu e até sabe o nome. — Marcelo respondeu:

— João, o Ricardinho não é parâmetro, cara. Acho que você precisa procurar ajudar, garanto para você que sempre que você abre as portas aqui não desce ninguém.

— Isso é verdade. — Alguns passageiros afirmaram.

— Melissa. — O jovem repetiu o nome.

Ricardinho era um garoto portador de necessidades especiais, ele e sua vó moravam em Luziânia, cidade do Goiás no entorno de Brasília, e três vezes por mês faziam essa viagem de madrugada para que fossem os primeiros atendidos no psiquiatra onde fazia o tratamento. “Realmente ele não é parâmetro, será que estou ficando louco?”, pensou distraindo-se e pulando uma lombada para xingamentos geral.

No dia seguinte disposto a resolver o mistério João observou pelo espelho os passageiros, o ônibus estava mais cheio que o normal, Ricardinho estava sentado no terceiro lugar e o Mago no fundo, havia pessoas em pé e ele não conseguiu ver a menina loira. Entretanto, antes da via atingir a BR-070, o sinal de descida foi acionado. “A última parada da Estrutural”. Algumas pessoas protestaram, mas ele ignorou e parou.

— De novo João? — Exclamou o cobrador Marcelo, mas João fixou os olhos no espelho retrovisor. Cabelos loiros desceram. Ele abriu a porta da frente e desceu correndo na escuridão.

— Aonde você vai? — Alguém gritou pela janela.

— Estou apertado, vai ser rápido!

— Volte! — Uma voz grave soou. Era o Mago. Aquilo o fez paralisar, o homem nunca tinha falado.

— Para sua segurança volte. — O estranho reiterou.

João tremeu de medo. Ele andou um pouco até o matagal, mas não avistou ninguém. “O que está acontecendo?”, questionou-se; “Estou ficando louco!”. Tinha certeza que alguém tinha descido. Respirou fundo e começou a voltar. Entretanto, de relance viu um vulto de mulher passando em meio ao mato. Cabelos loiros esvoaçando. Saiu correndo e se embrenhou no cerrado. Precisava provar para todos que não tinha enlouquecido.

— Aqui João. — Uma voz feminina falou.

— Melissa?

— Sim, João. Estou aqui, me ajude.

A voz lembrava a de sua filha e o pedido de socorro ativou seu instinto paternal. Correu ainda mais, mas no meio das árvores retorcidas e do céu sem lua nada via. O vulto cruzou seu caminho novamente. Lá estava ela, correndo. “Uma menina” pensou. E disparou atrás dela.

— Vem João!

Ele acelerou, tropeçando em buracos e raízes, corria cambaleando, chegou bem perto, estendeu a mão, tocou nos cabelos e foi parado. Uma dor súbita atingiu-o. Olhou para baixo e viu um galho pontudo atravessando sua barriga. Um fio loiro estava preso em sua mão. “Não era coisa da minha cabeça”, gemeu. De olhos arregalados viu o Mago parado na escuridão anotando algo em seu caderno. Um trovão ressoou e João rendeu-se às trevas.

Próxima parte: Linha 66.6 – O Mago

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A boa regra gramatical jamais deve ser uma camisa-de-força semântica nem sintática

Por Sidney Silveira - Blog Contra Impugnantes

QUEM NÃO CONSEGUE apreciar as dissonâncias oriundas das quebras conscientes de algumas normas gramaticais em prol da expressividade ou da clareza jamais poderá ser verdadeiro escritor. O motivo é elementar: o uso virtuoso de um idioma jamais se limita aos ditames da ciência normativa da linguagem, à qual chamamos gramática, mas pressupõe o domínio de algo que lhe é anterior, a saber, a índole mesma da língua, constitutivo formal de que a própria gramática se vale para codificar tendências e potências jazentes na estrutura mental de uma coletividade de falantes e escreventes de qualquer língua que seja. Não se chega, portanto, a um nível de compreensão superior de nenhum idioma apenas com a leitura dos bons gramáticos, pois esta deve ser complementada pela inescapável recorrência aos grandes poetas e prosadores, que elevaram o padrão da linguagem conotativa ao estado da arte. Por isso a boa regra gramatical jamais deve ser uma camisa-de-força semântica nem sintática, mas o razoável ponto de apoio para que a língua possa realizar de maneira plena as suas virtualidades expressivas. Não por outro motivo, diz o filósofo tomista Álvaro Calderón que a gramática serve à linguagem, e não o contrário.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

A conversão de um deus


Definitivamente Spuk é um deus mal. Não importa o que os sacerdotes do alto templo digam, não acredito neles.

Spuk é o deus do mundo, os Louvadores dizem que sentado em sua cripta em Aviloan ele escreve nossas histórias com sua pena de misericórdia. Tenho uma visão diferente. Acredito que Spuk, em sua sodomia, gargalhe com nossa desgraça, pois desde que apareceu restou-nos apenas o caos.

Há alguns anos tínhamos outros deuses. Rochedo, Senhor da Terra, Aurora Senhora dos Céus, Marinho, Senhor das Águas, Homo, Senhor dos Viventes e, Rajada, Senhora dos Ventos. Todos reinavam a partir de Aviloan, o grande monte redondo do céu noturno.

Eu era criança, mas lembro de momentos bons. Vivíamos do que o mundo provia. Caça, pesca e colheita. Essa era a vida de todos em Camposverdes.

Nós tínhamos uma pequena casa na Colina das Flores, atrás uma horta onde crescia nosso alimento e um pouco de nosso comércio. Ao lado o riacho proporcionava alguns peixes. Também descíamos em direção da mata para caçar; Kai e Kan, nosso casal de cães caçadores eram a vanguarda. Nosso pai montava o Crina Negra, nosso avô a Donzela Esguia, Carvin e eu íamos a pé com os arcos.

Foi na penumbra de um dia prestes a amanhecer que presenciamos o despertar do medo. Estávamos preparados para mais uma caçada quando bolas de fogo rasgaram o céu. Passavam rápidas e deixavam rastros luminosos que depois eram engolidos pela escuridão.
Os cavalos assustaram-se e os cães uivaram. Buscamos o olhar do nosso pai e ele procurou o do vô. O velho Sávio gaguejou antes de conseguir falar:

— Alguma coisa está acontecendo em Aviloan! Que Krainã a proteja!
— Que Krainã a proteja — Éramos ecos assustados.

Conta-se que nos ermos de Vavician conhecido como Campos do Fim do Mundo, existia uma grande cidade chamada Aluisia, era rica em ouro e pobre em honras. Sua perversidade causou a destruição de tudo o que havia ao seu redor, especialmente da Floresta Sagrada, habitação de Rajada, Senhora dos Ventos. Krainã era a rainha dos animais, uma leoa poderosa e orgulhosa que viu toda sua linhagem morrer pelas caçadas dos vavicianos. Em um ataque de fúria invadiu a cidade destroçou a família real antes de ser morta. Conhecida como “vingança dos ventos” foi elevada pela própria Aurora e colocada como guardiã de Aviloan. Suas lágrimas regam a terra quando está triste e, seu rugido é escutado entre as nuvens em dias de fúria.

Naquele momento em que o céu estava pintado de chamas ela era o que nos restava.

Spuk e sua hoste atacava Avalioan, dissera um dos sacerdotes de Homo. Tenho a certeza de ter escutado o rugido de Krainã, quando contei isso ao meu pai que disse ser imaginação de criança. Entretanto, fico com a memória que presenciei seu último rugido e, por conseguinte a queda dos deuses.

Colina das Flores permitia-nos ter uma vista, até então linda, do mar e foi por ele que as hostes de Spuk vieram flutuando. Suas bandeiras com a caveira anunciavam sua chegada, o inicio da era spukiana, o princípio do caos. Homens vestido de metal. Espadas sem compaixão.

Já se passaram quinze anos. Não há mais flores na colina. No segundo dia de desembarque eles nos atacaram, estupraram minha mãe e mataram-na, mas meu pai estripou em combate o mais importante de seus generais. Para nosso orgulho e desgraça total.

A colina foi completamente incendiada e sal foi lançado ao solo como um memorial de impiedade. Meu avô fugiu levando-me, não sei o que aconteceu com Carvin, provavelmente morto como todos que não foram escravizados em Camposverdes.

A vitória do meu pai naquele dia foi uma amostra de que nós não nos curvaríamos de maneira fácil. São quinze anos ininterruptos de guerra, mais navios desembarcam a cada dia e todo o sul foi dominado. Minha terra, meu lar.

Hoje comando as forças de resistência do leste, mas em certo ponto já fomos derrotados. Não nos entregamos e não o faremos de forma alguma. Entretanto, os invasores conseguiram uma grande vitória. Transformou o deus deles no senhor do nosso mundo. Era interessante ver meus soldados beijando um osso preso ao pescoço, símbolo de Spuk, antes de partirem contra os spukianos. No inicio obrigava-os a livrar-se dos objetos, em um momento de descontrole cheguei arrancar uma cabeça por isso, hoje nada preciso falar, comando os “Hereges” como somos conhecidos pelo inimigo. De certa forma tenho orgulho do nome.

— Meu lorde, todas as vilas da região foram queimadas.

— E a população?

— Na estrada.

Segui Sor Cane e vi mais uma das cenas terríveis que se tornaram cotidianas. Em toda extensão da estrada foram cravadas nas laterais estacas com cabeças de mulheres e crianças. “Sem crianças para virarem homens e sem mulheres para darem filhos como vocês lutarão futuramente?”. Tinha lido na carta enviada por Mardoc II imperador dos spukianos. Todas as cabeças tinha um buraco em alguma parte.

— Eles arrancam ossos para servir de amuletos.

Os guerreiros mais poderosos, chamados de “Filhos de Spuk”, arrancavam apenas dos inimigos mais bravos e tinham colares sem espaço para os ossos.

Meus olhos vasculharam o céu em busca de uma luz, mas há exatos malditos quinze anos o sol não apareceria, mesmo sendo dia, nuvens negras deixavam o céu cinza.

— Maldito seja Spuk e todos os que o adoram!

Alguns homens me olharam assustados, reagiam com temor sempre que eu falava dessa forma, por medo dos deuses, independente de qual fosse e, também por terem familiares entre os Louvadores.

— Avancemos. Pelas marcas do acampamento estamos praticamente em mesmo número e não dormirei enquanto não matar um desses malditos!

Cavalgamos rapidamente até que um dos batedores veio avisar.

— Senhor! Estão bem próximos e estamos praticamente no mesmo número. Também já fomos vistos.

— Ótimo.

— Tem outra coisa, os estandartes não são vermelhos.

Os estandartes de Mardoc II eram vermelhos. Só havia um grupo que usava outra cor.

— Pretos?

A confirmação do soldado fez muitos arregalarem os olhos. Eram os “Filhos de Spuk”. Finalmente as duas tropas mais letais se encontrariam no campo de batalha. Podia até imaginar alguém falando assustado no outro acampamento: “São os Hereges”. O pensamento fez-me gargalhar.

— Preparem suas carcaças, infames! É chegada a hora de por um fim nisso! Vamos arrancar Spuk de seu trono e mostrar que um deus pode ser estripado!

O encontro foi rápido. Outras companhias de batalha ficariam um tempo trocando provocações, propondo duelos, marchando para mostrar todo seu poderio. Não nós. Éramos assassinos, guerreiros, para isso viemos ao mundo.

Tem pessoas que conseguem detalhar as batalhas, eu me lembro de muita coisa, mas é complicado liga-las. Desci cavalgando em alta velocidade e com uma lança atravessei o peito de um comandante, com a espada rasguei um pescoço, abri um homem da virilha até o peito e depois disso recordo-me apenas de golpes, terra, sangue, gritos, estandartes encharcados, não faço ideia de como perdi a montaria, sei que levantei e acertei um jovem que tinha idade para ser meu filho, por fim a multidão de corpos no chão. Essa imagem jamais esquecerei.

Da minha companhia eu era o único ainda com condições de ficar em pé, apesar de ter o braço da espada sem movimentos. Do outro lado três cavaleiros spukianos vinham caminhando, dois tombaram alguns passos à frente devido os ferimentos. Restamos apenas nós, os dois lendários comandantes de duas míticas tropas.

Queria dizer que estava pronto para a batalha, mas já não tinha mais forças. Estava preparado para morte, entretanto, desejava a morte gloriosa de combate. O comandante tinha minha altura e usava um elmo fechado. Correu em minha direção acertando-me com um chute frontal e me jongando ao chão. Consegui segurar uma lança, queria morrer com ela na mão. O inimigo levantou sua espada para o golpe de misericórdia. Tentei reagir, mas já não tinha energia. Arregalei os olhos, pois se era hora de partir queria ver o rosto amaldiçoado de Spuk. A espada começou a descer…

O sol apareceu.

Há exatos malditos quinze anos o sol não apareceria, no entanto, sua luz rasgou as nuvens escuras que imperavam no céu. Meus olhos ofuscaram, o fenômeno era tão grandioso que por um momento esqueci-me da espada que vinha em minha direção. Pelos Porões dos Castigos, no dia em que o mundo muda estou partindo, pensei.

Entretanto, a espada também tinha parado. O inimigo olhava para o céu, não diferente esqueceu-se da batalha a ponto de virar as costas. Ele arrancou o elmo, o astro pareceu me dar novas forças; levantei. A luz nos iluminou-nos e falámos em uníssono:

— Irmão?

Enquanto Carvin e eu nos abraçávamos o céu abriu por completo. Crianças apareceram descendo a mata da colina, extasiados por verem o dia pela primeira vez.

E, em meio ao mar de corpos o mundo cruel em que vivíamos ganhou um novo sentido e seu povo uma nova vida.
***
Sentado em um Café no Rio de Janeiro, Roger Santos, conhecido pelo pseudônimo Spuk, fechou seu caderno surrado onde escrevia seus contos de guerra, cheirou as flores que tinha comprado para a mulher que acabara de conhecer e por quem estava completamente apaixonado e, em um novo rascunho iniciou uma poesia, sem trevas nem sangue.