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O som da liberdade

O Som da Liberdade por Jefferson Nóbrega Em uma rua silenciosa de uma cidade silente. Em um país mudo de um planeta taciturno; um homem chamava a atenção. Quando ele passava as pessoas erguiam a cabeça e baixavam novamente. Pode não parecer nada espetacular, mas era; pois existiam pessoas que nasciam e morriam sem sequer olhar nos olhos de alguém. Ele se destacava na paisagem de prédios cinza e árvores secas, suas vestes brancas com tons azuis eram novidades onde o marrom mórbido dava o tom das roupas. Seus sorrisos e movimentos leves assustavam comparados à marcha mecânica que caracterizava todos. A barba e os cabelos grandes mostravam-se como uma grande novidade diante dos rostos perfeitos e iguais. — Bom dia. — Parecia não se importar com a falta de resposta. Também não demonstrava espanto com a rua engarrafada sem sequer uma buzina apitar. — Bom dia — repetiu para o jovem sentando em uma cadeira na calçada de uma lanchonete, segurava um cardápio por costu...

Tudo por serem poetas

Penso em parar de escrever, especialmente poemas e poesias, Notei que os poetas não são muito agraciados pela vida, Especialmente os homens, Perdem-se na boemia e nos sofrimentos dos amores, Amam intensamente, mas no final é a solidão que abraçam, Arquitetos de palavras no fim lágrimas os calam, E não é dor física que temo, É o fardo de conhecer o íntimo dos sentimentos, sem conseguir vivê-los da forma que escrevo, A vida é traiçoeira com os trovadores e a arte acentua suas dores, Suas aflições não são discretas, Ao coração são submissos, Tudo por serem poetas; Ou são poetas por isso?

A Carta

Remetente :  Jefferson Nóbrega Destinatário : Futuro amor da minha vida Brasília 29/08/2014 Futuro amor da minha vida, como você está?   Escrevo por que não vejo a hora de te encontrar, de ver seu rosto; conhecer-te. Aliás, eu já posso até tê-la visto, mas sabe como é, a vida tem nuances que nos cega às vezes. Peço que perdoe-me. Não sei como és, porém quero logo estar contigo. Não demore por favor, o tempo urge! Cada dia que passa são momentos que perdemos. Agora mesmo poderíamos está aqui no sofá, você com a cabeça em meu colo, perdendo-se em lágrimas por causa do filme enquanto faço pose de durão e derreto-me por dentro.   Fico imaginando como você é, acho que também pensas o mesmo. Sabe, provavelmente já nos encontramos e até gostei de você, algo deve ter dado errado, mas vamos nos topar novamente.   Você não deve ter notado que nascemos um para o outro por causa dos sofrimentos que já te causaram, isso gera medo e cega, entretan...

Sobre escolher demais no amor...

Pensamentos corroeram minha mente por toda a madrugada. “Você escolhe demais”, escutei essa frase de três mulheres em um único dia. Ditas em tons acusatórios, como se eu tivesse cometido um crime de lesa-majestade. Não seria um direito meu “escolher demais”? “Ah, mas quem escolhe muito fica sem nada”, é a réplica genérica. “Ficar sem nada” é um risco.  Todos que amam estão propensos à rejeição e solidão, a vida sem perigos não é vida.  O problema desse tipo de inculpação é que  jogam-me ao estereótipo “só quer peitos e bunda”. Geralmente redarguo: “Leste um dos meus contos, poesias ou poemas?”, se a resposta for não, finda-se tudo. Como ousam julgar os sentimentos de um escritor ignorando seus escritos? Mesmo que sejam ruins. É por sua pena que seu coração confessa-se e requesta-se com toda sinceridade. Se lessem saberiam que imputar-me o gosto por turbinadas é idiotice, afinal todas as minhas protagonistas são descritas como esguias, magrelas, selvagens e acima ...

Welcome to the Hotel California

Esse conto faz parte de um desafio que fazemos no grupo “ Escritores Desconhecidos ” no facebook onde a galera aqui do ONE tem se reunido. Junte-se a nós! Os trechos da música do Eagles ficarão em  itálico . Deixo a música traduzida caso queira conferir a letra antes: <iframe width="560" height="315" src="//www.youtube.com/embed/pPf9pn2TR9k" frameborder="0" allowfullscreen></iframe> Os faróis de um Mitsubishi conversível romperam a escuridão da estrada, onde antes reinava apenas o neon azul da placa do hotel. Felder estacionou meio relutante, pegou o celular, mas não tinha sinal. Passar a noite ali ou dormir no carro eram as únicas alternativas. Abriu a carteira e não gostou do que viu. “Droga! Esses hotéis que ficam no meio do nada custam o olho da cara”, pensou. Fechou a capota, abaixou o banco, ligou uma música do Eagles e para relaxar acendeu um baseado. Estava quase dormindo quando sua visão foi preenchida ...

Linha 66.6 – João, O Motorista

João tinha vinte anos como motorista de ônibus e cinco na linha 66.6, todos os dias às 03:00 da manhã saia da rodoviária do Plano Piloto tendo como destino a Ceilândia, cidade satélite de Brasília. O “corujão” como são chamados os ônibus que trafegam pela madrugada, levava geralmente trabalhadores noturnos e curtidores da noite da capital do país. João já se acostumara com o horário e até gostava, geralmente tinha uma amizade com os passageiros por serem na maioria das vezes os mesmos. Suzana, um travesti, era a mais animada e como sempre entrou fazendo barulho: — Boa noite motora, é hoje que finalmente vou pegar na marcha? — Com bom humor João respondeu: — Não mesmo Suzi. Em seguida entraram os garçons Cláudio e Luis, os vigilantes Cabeça, Gordo e ET, um jovem calado que parecia ser estudante, mas que Suzi dissera que era  gogo boy , e assim o ônibus ia tendo os lugares preenchidos na rodoviária, com exceção de dois. Toda a noite era assim e isso ...

A boa regra gramatical jamais deve ser uma camisa-de-força semântica nem sintática

Por Sidney Silveira - Blog Contra Impugnantes QUEM NÃO CONSEGUE apreciar as dissonâncias oriundas das quebras conscientes de algumas normas gramaticais em prol da expressividade ou da clareza jamais poderá ser verdadeiro escritor. O motivo é elementar: o uso virtuoso de um idioma jamais se limita aos ditames da ciência normativa da linguagem, à qual chamamos gramática, mas pressupõe o domínio de algo que lhe é anterior, a saber, a índole mesma da língua, constitutivo formal de que a própria gramática se vale para codificar tendências e potências jazentes na estrutura mental de uma coletividade de falantes e escreventes de qualquer língua que seja. Não se chega, portanto, a um nível de compreensão superior de nenhum idioma apenas com a leitura dos bons gramáticos, pois esta deve ser complementada pela inescapável recorrência aos grandes poetas e prosadores, que elevaram o padrão da linguagem conotativa ao estado da arte. Por isso a boa regra gramatical jamais deve ser uma camisa-de-f...