Sobre meus contos

Pessoal o banner acima está desatualizado, nas tag's à esquerda vocês encontrão todos os meus contos, ou se quiserem podem clicar aqui

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Devaneios #3 - Tem uma cobra na minha bota!


Um dos grandes inimigos da felicidade, sem sombra de dúvidas, é a rotina. Ela simplesmente apaga a vida, transforma momentos mágicos em algo normal. Sim, seu dia a dia tem momentos mágicos, se não percebe nenhum então Ela também te abraçou e fez de ti seu escravo.
A vida tem várias maneiras de nos arrancar da rotina. Umas simples, outras pouco perceptíveis e algumas bruscas. O problema maior é quando as bruscas tornam-se imperceptíveis. Hoje tive um desses momentos.
Levantei com o despertador. Rotina.
Na pressa comi pão com café requentado. Rotina.
Corri para a parada aos 45 do segundo tempo. Rotina.
Três ônibus me servem. O primeiro passou lotado e não peguei. Rotina. 
O segundo não tão cheio, também deixei passar. Rotina.
No terceiro com acentos vagos próximos da janela eu entrei. Rotina.
Sentei no banco após a porta do meio, coloquei meus fones e liguei a música. Rotina.
Bom Dia do grupo 3030. Rotina
Com os óculos escuros tiraria meu cochilo do caminho. Ops, a conjugação do verbo já mudou, um “tiraria” apareceu. Lá se foi a rotina? Ainda não, estava bastante entorpecido por seu perfume.
Encostado observando a vida passar pela janela senti algo caindo no meu pé, olhei e vi que era colorido, de relance achei que era uma pulseira, dei um leve chute e percebi que se mexia, deduzi assim que era uma lagarta. Empurrei mais uma vez e, para minha surpresa era uma cobra. Sim, tinha uma cobra dentro do ônibus!
Durante algum tempo eu fiquei apenas olhando aquele animal, pensando como foi parar ali. Até o bordão do Woody saltou à ponta da língua: “Tem uma cobra na minha bota!”.
Pequena com uma coloração que lembra a cobra-coral ou a falsa coral, se enroscava em um parafuso tranquilamente. Como não sou um herpetólogo para saber se era venenosa ou não, achei melhor me afastar. Comentei comigo mesmo: “Uma cobra”.
Foi o suficiente para escutar um grito feminino do lado: “Cobra? Motorista para o ônibus tem uma cobra!”.
Então mulheres subiram nos bancos, gritavam e com olhos desesperados buscavam o “terrível” bicho.
Com um guarda-chuva peguei o animal e coloquei na rua, ainda com pausa para as fotos dos celulares curiosos que nunca param.
Após esse episódio, impressionantemente todos sentaram, encostaram, colocaram seus fones ou fixaram-se nos celulares e voltaram aos seus afazeres rotineiros.
Imediatamente também peguei meu smatphone e comecei a escrever esse texto, chocado com o fato de que nem uma situação tão insólita como essa é capaz de arrancar as pessoas da rotina.

Talvez seja necessário aparecer uma anaconda.
Para ler mais Devaneios clique aqui.
Na categoria "Devaneios" são postados textos que surgem na minha cabeça do nada e desaparecem com a mesma rapidez, ficando uma verdadeira loucura de palavras muitas vezes com final desconexo. Ou seja, loucura total. rsrs. Também é onde posto minhas crônicas. Comenta e diga o que achou. 

domingo, 23 de agosto de 2015

O espelho e o bardo guerreiro



Aço, sangue e terra. Com essas três palavras os últimos meses poderiam ser resumidos. Após mais uma vitória, conquistada às custas de muitas vidas, a guerra findava e o humor dos guerreiros estava ótimo. O bardo elevou a voz:
 
— Pelo quê lutamos? 
— Pelo rei — alguém gritou. 
— Pelo reino — outra voz soou. 
— Pela glória — uma voz sobressaiu-se.
Por vingança e espólios — alguém foi sincero. O bardo bradou:
E tudo isso tivemos essa noite, irmãos. Então comemorem! Mas, não sem antes gritar um viva ao homem que tornou tudo isso possível: Lorde Aron!
 
Gritos ecoaram por toda a vila e Lorde Aron aceitou-os com modéstia. Sentado no meio do acampamento, ele estava com sua filha no colo e ao seu lado sua esposa e filho. Não parecia o homem que chegara à cidade com sangue até a cabeça, que a simples menção do nome fazia os inimigos tremerem. A visão era de uma família simples e feliz, aliás era isso que Aron sempre quis, porém as circunstâncias o levaram por outros caminhos.
 
Todos fizeram silêncio quando ele levou as mãos ao alaúde. Além de guerreiro, Aron era um músico nato, duas coisas opostas. Ficava difícil imaginar que as mãos que portavam espadas e escudos como ninguém, tivessem sensibilidade para um instrumento tão belo. Ainda mais que, suas músicas jamais cantavam o gozo cavalheiresco da batalha; não, sua vida já tinha muito disso para nele debruçar seu dom. A primeira nota soou, a melodia preencheu sua mente e olhando para sua esposa que amava mais que tudo, compôs a canção:
 
És tão linda que as estrelas ao te verem passar
Caem de inveja não conseguem suportar,
És tão linda que as flores ao te verem chegar,
Afiam os espinhos não conseguem te olhar,
Teus olhos são tão lindos que a escuridão,
Entrega-se a luz para não afligir-te o coração,
 
És tão bela que,
O Sol no deserto faz sombra para que passes sem perigo
A água brota da areia para não ressecar seus lábios lindos.
 
És realmente graciosa,
Que até a palavras lindas que eu iria usar
Esconderam-se em meio às horrorosas,
Para não te elogiar.
 
Lágrimas escorreram no rosto da esposa homenageada, por todo o local, casais deram as mãos e trocaram olhares apaixonados. O silêncio durou alguns minutos até ser rompido por aplausos. A festa recomeçou. 

Lorde Aron chamou a esposa e iria para o quarto quando notou seu filho com o olhar perdido. Viu que ele observava em transe uma garota que dançava, sempre que ela girava os dois se encaravam e sorriam. A menina era magra e ágil, diferente das outras não trançava os cabelos, isso dava-lhe uma beleza selvagem. Lorde Aron foi à pilha de espólios pegou algo e sentou ao lado dele, a esposa deixou-os sabendo que era uma conversa de pai e filho.
 
— Joseph  chamou tirando o garoto de seu mundo de fantasias. Observou o rosto do filho assustado, notou que um esboço de bigode surgia, ele estava se tornando um homem. Isso de certa forma irritou Aron, pois perdera esses detalhes por causa das guerras, prometeu a si mesmo que com sua pequena Isabelle seria diferente.
 
— Sim, pai.
— O que é isso? — Entregou o objeto para o garoto que pegou e analisou rapidamente. Respondeu:
— Um espelho.
— Não, meu filho. Isso é um coração.
— Não entendo pai. Coração?
— Sim. Assim como um espelho o coração vive de reflexos. Dê amor e verá amor refletido. Dê-lhe ódio, tristeza, deslealdade e isso também receberá. Compreende?
— Sim. — Joseph pensou um pouco e inquiriu:
— Mas, por que tem vezes que damos amor e não o recebemos?

Lorde Aron pegou o espelho da mão do filho e o jogou no chão partindo em vários pedaços.

— Junte o máximo de pedaços Joseph — ordenou. Como se montasse um que quebra-cabeças ele uniu os cacos no chão.
— Agora olhe para o espelho quebrado e diga o que vê?
— Meu reflexo.
— Está igual antes?
— Não.
Da mesma forma acontece com o coração. Quando ele é dilacerado, os pedaços são reunidos com o tempo, mas o reflexo nunca mais será o mesmo.
 Entendi, pai.
— Ótimo. Você é responsável pelos sentimentos que desperta. Qualquer tolo pode ter um bigode ridículo desses – os dois riram –, mas, só um homem de verdade compreende isso. Não brinque com o coração das mulheres, ser sincero com elas é ser verdadeiro com seus próprios sentimentos. — Joseph, assentiu pensativo. Agora levante-se e vá chamá-la para dançar antes que outro o faça.
 
E orgulhoso Aron observou Joseph beijando a mão da garota e logo em seguida abraçando-a. Enquanto ia para o leito de sua esposa deu um tapa no ombro do bardo e disse:
 
— É por isso que eu luto, meu amigo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Devaneios #2 - Elas sabem!


As mulheres sabem! Essa foi a primeira frase que me veio em pensamento ao abrir o papel para escrever aleatoriamente.

Mas o que realmente elas/vocês sabem? Talvez seja ousadia somada à tolice responder algo desse tipo quando, a mente feminina continua sendo uma esfinge indecifrável. Porém, vou tentar. Mesmo correndo o risco do ridículo me atreverei aclarar “o que as mulheres sabem”.

As mulheres sabem de muita coisa, não é apenas algo complicado o que me propus, é amplo. Tenho que ser sucinto.

Elas sabem nos fazer felizes, mas também sabem nos destruir. Espera, comecei muito clichê. Por que falar do óbvio?

Vamos lá coração suplante o cérebro nessas reflexões.

Sabe meu amigo quando nos fingimos de fortões, garanhões reprodutores sem sentimentos, inabaláveis com o que elas acham ou deixam de achar? Elas sabem! Não adianta seu olhar de desprezo ou sua saída de perto – aliás isso piora tudo –, elas possuem um poder de detectar que você se importa, que há sentimentos te corroendo por dentro e obrigando-o a fugir. Sua expressão de bad boy para elas é o rosto de um pantomineiro.

Elas sabem quando nós queremos algo a mais. Sua pose de bom amigo é em vão – sei era só para responder, mas não custa nada ajudar esses cabeças de bagre –, ela vai adorar seus agrados claro, mas o fato de elas saberem não a jogará direto nos seus braços.

Nós podemos até ter sucesso em algumas mentirinhas de vez em quando, porém se ela te conhecer essas chances são reduzidas drasticamente. Elas sabem. É algo no olhar, no tom de voz, no suor na sua testa e etc.

Elas sabem de muita coisa. Sabem quando estamos tentando impressionar, sabem quando não estamos sendo nós mesmos, quando tentamos fazer ciúmes, quando estamos apaixonados, quando estamos passando por alguma coisa, quando estamos fedendo – isso qualquer um percebe hehe –, quando queremos só sexo, quando a desejamos para o resto da vida e etc.

É redundante, no entanto, repito: Elas sabem de muita coisa. É provocante, mas acrescento: Elas também não sabem de muita coisa.

Calma sem brigas. É confuso mesmo. 

Isso por que homens e mulheres possuem suas diferenças, e são elas que as tornam tão maravilhosas. Mas, também possuem sua igualdade chamada: coração. E quando um homem sabe escutá-lo ele também tem essa perceptividade que tanto abordei.

No fim foram muitas palavras para chegar novamente no óbvio: Elas sabem e nós sabemos.

Como assim? Se propôs ser o homem das respostas e jogou a tolha? Não. Esse texto é só mais uma parte dos meus devaneios. Quem disse que acabou? Em outra noite de insônia posso continuar. Mas, por hora vou dormir.

Para ler mais Devaneios clique aqui.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Devaneios #1 - Temos todo o tempo do mundo?



— Não estamos bem, preciso que me dê um tempo – ela disse. Ele olhou-a profundamente e suspirou de forma cansada.

— Como posso dar algo que não tenho? Meu tempo não é mensurável, não é palpável e não me pertence. Como te dar um tempo se no próximo segundo posso retornar ao pó? Como posso de conceder esse pedido? Imagina se amanhã é meu último dia? Estarei condenando-me a partir desse mundo com incertezas, com a mente recheada de “e se”. O tempo é precioso, alguns falam que é dinheiro, eu digo que é vida. O tempo que você deseja pode ser minha privação de amar outras coisas ou outro alguém.  O que me pede é apenas uma sombra do passado e o vislumbre de um futuro que sequer existe.  Acatar o seu desejo seria oferecer a nós dois ilusões e, disso nossas vidas já estão cheias. Ofereço-lhe o Fim. Esse sim é certo, é mensurável, é visível. Aliás, ditados, religiões e filosofias costumam afirmar que também é o recomeço.

Ela piscou algumas vezes antes de responder:

— Era só falar: não.


— Era só ter dito: fim.

Esse é o primeiro texto da categoria "Devaneios". Nela serão postados textos que surgem na minha cabeça do nada e desaparecem com a mesma rapidez, ficando uma verdadeira loucura de palavras muitas vezes com final desconexo. Ou seja, loucura total. rsrs Comenta e diga o que achou. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Plumitivo




Era onírico e real,
Educado e pueril,
Covarde e heroico,
Delicado e viril
Uma alma no etéreo,
Um ponto no vácuo,
Um pé no eterno,
Uma corda no buraco.
Eram amores nascentes,
Paixões no fim,
Eu crescente,
O renascer em mim,
Força da dor,
Dor de ser forte,
Brilho do amor,
Fomento da morte,
Era sestro de aquilatador,
Era méleo e fel,
Era pena de ardor,
Versejando o papel.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O Reino dos Animais

Conto escrito e dedicado á Maria Clara. A minha leitora mais nova, literalmente. Ela me deu o título, o personagem principal e falou para escrever algo. Espero que tenha ficado legal. Abaixo a Maria Clara lendo meu blog e fazendo sua mãe, Jú, interpretar o conto. rsrs


Por Jefferson Nóbrega

— Lobinho, lobinho, se feiura doesse tua mãe vivia uivando. — Disse Quito no ouvido do lobo mais perigoso de todos e saiu voando.

Laicão, o líder da cruel matilha que governava às Terras Escuras pulou alucinadamente tentando morder e devorar o pequeno pássaro, mas Quito era ágil e zombava do lobo. Ficou desviando e provocando o lobo até que escutou um bater de grandes asas; era ele, o Gavião, um pássaro cruel e sanguinário. Dessa vez Quito não subestimou e fugiu rapidamente, o Gavião mergulhou em um voo rasante e suas garras afiadas quase agarraram Quito, mas ele foi passou pelos arbustos até sumir da vista da ave de rapina assassina. Já fora das Terras Escuras, Quito gargalhou de mais uma aventura.


Quito, era um periquito, seus pais não eram muito criativos com nome como podem perceber, tanto que seu irmão, que infelizmente morrera na guerra, chamava-se Peri. Mas, Quito tinha muitos apelidos: Quito O Maluco, Quito Sem Noção, Quito Comida-de-Lobo, Quito O Ousado, esse último ele mesmo dera.



Ele vivia no que restara do antes magnífico Reino dos Animais. Governado pelo leão Leo, o reino era um lugar maravilhoso de se viver, muitas árvores frutíferas, rios refrescantes, animais felizes vivendo suas vidas. Até que, a matilha de lobos sob o comando do cruel, Laicão, armaram uma armadilha e prenderam o Rei. No dia do aniversário da Leoa Mãe a matilha atacou, Leo saiu em perseguição dos lobos e a última vez que fora visto estava na região das cavernas, depois disso não se teve mais notícia e, Laicão passou a governar o Reino dos Animais. Em pouco tempo tudo foi destruído, as frutas acabaram, animais fugiram ou foram mortos, as árvores secaram, até as nuvens ficaram negras, o lugar passou a ser chamado de Terras Escuras. Laicão e seus lobos formaram um exército com outros animais maus. Hienas, serpentes, Gaviões, Carcarás, Escorpiões e todo tipo de bicho. Dessa forma fizeram dos outros escravos, porém alguns conseguiram fugir para outra floresta , como a família de Quito.


— Você ainda vai ser morto, Quito — disse a coruja Atena.

— Não vou deixar aqueles lobos em paz.

— Você me lembra muito seu irmão, ele também não aceitava a ideia de não lutarmos e, acabou sendo devorado pelo gavião.

— Isso também não vai ficar assim, Atena. Um dia acertarei as contas com aquele gavião.

— És um pássaro pequeno, mas de grande coragem.

— É um idiota — a andorinha, Dora entrou na conversa. — Fica fazendo essas babaquices e deixando seus pais preocupados. Não vai demorar muito e será devorado.

— Não irei, intrometida. Eu tenho um plano.

— Que plano? — perguntou Atena.

— Não posso falar, mas nem que eu morra tentando, algum daqueles vilões vão pagar por todo mal que tem feito.

— Se eles pagarão não sei — disse Dora — mas, que você morrerá tentando é certeza.

— Quer saber? Deixem-me em paz!  — Quito, voou para casa.

Naquela mesma noite a matilha e seus aliados atacaram a reserva onde Quito morava. Os animais fugiram em desespero, os elefantes maus saíram derrubando as árvores, gritos eram ouvidos por todos lados. Mesmo com todo o terror alguns animais corajosos ainda lutaram. Quito foi um deles, atacou com toda a coragem, mas sua força era insignificante. Quando Laicão o viu, bradou a ordem:

— Matem esse maldito periquito!

Quito bateu as asas com força para fugir, mas foi acertado pela tromba de Julius, o maior dos elefantes. Foi jogado contra uma árvore e caiu sob um galho, tentou voar novamente, porém sua asa estava quebrada. Foi nesse momento que viu o gavião sorrindo, o mesmo que matara seu irmão, agora investia com tudo. Quito viu suas terríveis garras se aproximarem e se preparou para morrer, mas o Gavião foi atingido e desviou o caminho. Dora e Atena voavam contra o terrível inimigo.

— Dora, Atena, fujam! Me deixem e fujam! — gritou.

No entanto, as duas aves mesmo em força inferior lutavam contra o gavião que parecia divertir-se com a situação. Atena gritou:

— Mico, leve ele daqui.


Assim o Mico arrastou Quito para dentro de um buraco na árvore e de lá eles viram o gavião rasgando as asas de Atena e indo embora com Dora em suas garras. O periquito entrou em desespero, gritou, mas não podia fazer nada, por fim desmaiou de dor.

Quando despertou estava em seu ninho, sua asa sendo tratada por sua mãe.

— Não se mexa, querido. Logo ficará boa, mas precisa repousar.

— Atena e Dora? O que aconteceu?

A mãe dele apenas abaixou os olhos com tristeza.

Quito passou semanas e se recuperou, porém apenas fisicamente. Seu espírito estava abalado. Culpava-se pelo ataque dos lobos e não se perdoava por isso. Mesmo bom não saiu do ninho em nenhum momento. Sabia que Atena estava viva, mas muito mal. E não tinha coragem de encará-la. Pensar em Dora o fazia chorar, a andorinha fora levada e nunca mais ninguém tinha tido notícias.

Em mais um dia vendo o amanhecer, Quito escutou gritos, seu instinto o fez ir em socorro e encontrou o cervo chorando.

— O que aconteceu Vanda?

— Eles levaram meu filhote.

— Com assim? À luz do dia?

— Desde o último ataque eles têm vindo aqui a qualquer hora. Laicão declarou que essa reserva e território dele agora.

— Maldito lobo!

Quito saiu em disparada e nem escutou o chamado de Vanda. Todos os animais paravam o que estavam fazendo para vê-lo passar em um voo furioso. Há mais de um mês não o viam daquela forma e se espantavam ainda mais ao ver a direção que ele tomava. O periquito estava  indo com todo furor na direção das Terras Escuras.

— Quito! — Quando escutou a voz de Atena, ele parou, foi até o ninho dela.

— Minha amiga, me desculpe, mas não tive coragem de visitá-la, a culpa foi minha. — Quito segurou-se para não chorar ao ver que a amiga tinha perdido uma asa e a outra estava pela metade.

— A culpa é nossa, Quito. Quem não faz nada para impedir o mal é tão culpado quanto quem o pratica. E nesse caso você é o único inocente. Conheço esse olhar e esse voo, sei para onde está indo, não vou tentar impedi-lo, só peço que tome cuidado.

— Tomarei minha velha amiga.

— Sabe que é loucura tentar fazer alguma coisa só?

— Mas, quem disse que estou só, Atena? Estou com  Dora, com meu irmão, com o filho da Vanda, com Leo e com todos que perdemos.

— Boa sorte, amigo.

— Há algum tempo eu descobri algo importante que poderá mudar tudo. Sei que posso fazer, porém não sei se sobreviverei. Se eu não voltar diga aos meus pais que amo eles. Espero que um dia se orgulhem de mim.

—Não se engane Quito. Eles têm muito orgulho. Agora vá, não deixe essa chama apagar.

Quito despediu-se e partiu, logo estava nas Terras Escuras e foi baixo e rápido. Laicão estava deitado, comendo carne, quando viu o ser que mais odiava pousando na sua frente.

— Olha quem está aqui — disse o lobo — É muita ousadia ou vontade de morrer.

— Seu lobo idiota! Quem você acha que é para atacar nossa reserva?

— Olha pra você. Uma ave insignificante. O que pretende fazer?

Antes que o lobo fechasse a boca o pequeno bico de Quito cravou-se no olho do lobo que uivou alto fazendo com que seus capangas entrassem na caverna. Os outros lobos da matilha pulavam tentando devorá-lo, porém Quito acertou mais dois lobos no olho. Laicão deu a ordem:

— Gavião, peque esse pássaro e traga-o vivo, ele será meu almoço! 

Quando escutou o bater das grandes asas o periquito saiu da caverna. O gavião investia e Quito ia usando os arbustos e as árvores para escapar. Duas vezes o gavião se chocou contra galhos o que lhe dava ainda mais ódio. Na segunda vez que bateu em um galho ele caiu, o que fez com que Quito pegasse uma boa distância. Mas, o gavião era rápido e o alcançou. Quito se lançou em direção do chão novamente, mas encontrou o elefante Julius no meio do caminho. Sua tromba quase o acertou, porém Quito pousou bem na sua cabeça.

— Vem seu gavião idiota! — gritou.

A ave acelerou seu voo e mirou suas garras contra Quito que ficou só observando. Foi tudo muito rápido. Quito pousou na cabeça do elefante esperou até o último segundo e quando o gavião estava para agarrá-lo ele voou. Com isso as garras afiadas do gavião cravaram-se na cabeça do elefante. Julius no susto agarrou o gavião com a tromba e bateu ele duas vezes no chão com toda a força.

O gavião ficou espatifado e gemendo no chão. Quito pousou em sua barriga:

— Isso foi pelo meu irmão, por Dora e Atena.

Nesse momento Laicão e seus lobos surgiram.

— Julius seu idiota! Amasse esse periquito ou você será nosso almoço!

Quito partiu em disparada com o grandão atrás dele. O elefante ia derrubando as árvores e jogando galhos com a tromba, porém Quito era ágil e ia desviando. Não contente diminuía a velocidade e zombava do elefante, fazendo com o que o grandão ficasse com mais raiva.

— Você já era passarinho! — gritou o elefante quando viu o cenário.


O elefante estava agora na descida de uma colina, os lobos viam logo atrás, com seu peso ele ganhava velocidade e à frente tinha uma gigantesca rocha que serviria como muralha. Escutou Laicão gritando atrás para que ele parasse, mas agora não tinha mais jeito. Julius estava em toda velocidade e sabendo e Quito não conseguiria voar sobre a rocha, assim seria esmagado por seu peso. Quito não deu sinal de que iria parar e quando a rocha chegou bem perto ele se lançou contra ela, Julius ficou esperando ele bater na pedra e cair, mas o periquito passou por um pequeno buraco e entrou na montanha.

— Não Julius! Pare! — gritou Laicão.

Mas, o elefante estava indignado e sem pensar duas vezes lançou todo seu peso contra a rocha que partiu no meio revelando uma caverna. Uma nuvem de poeira subiu e impediu que todos vissem a expressão de medo de Laicão.

Outros animais se amontoaram em volta e quando a poeira baixou viram Quito pousado sobre uma pedra, foram tomados de espanto quando viram Julius parado e em seguida se ajoelhando. De repente Laicão saiu correndo desesperado, ninguém entendeu, até que viram da caverna uma silhueta gigantesca saindo, logo em seguida um urro tenebroso que fez todos tremerem e, sobre a pedra um poderoso leão surgiu. Era Leo, o Rei, libertado de sua prisão pelo menor de seus súditos. O leão lançou-se em seu furor e só descansou quando caçou Laicão. Todos os outros animais maus fugiram.

— Vida longa ao Re!i — gritou Atena mais tarde.

— Viva! — Todos responderam.

— Viva longa a Quito o maior dos heróis!

— Viva! — O coro foi ainda mais forte.


Assim as Terras Escuras tornaram-se verdes novamente e o Reino dos Animais voltou a sua glória. Quito foi aclamado como o maior dos heróis de todos os tempos e provou que, mesmo o menor e mais fraco dos seres pode realizar coisas grandiosas.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Outra metade


Por Jefferson Nóbrega

O coração é algo interessante; ele é rebelde. Enquanto o cérebro é o ditador do nosso corpo, tendo tudo sujeito a sua vontade, o coração é insubmisso, um revolucionário sem causa, sempre disposto a contestar qualquer decisão que consideremos racional.

Como um revolucionário suas decisões nem sempre são sábias, às vezes catastróficas e, por esse motivo cada vez mais temos aprendido a ignorar sua insurgência. Será sábio trancarmos de tal forma? Deixar a vida à regência do comodismo ou ao medo de uma mudança radical?

Tais questionamentos perpetravam na mente de Laura enquanto no banco da praça observava as pessoas passando. Cada uma perdida em seu mundo particular, em seus smartphones e fones de ouvidos, todos arrumando formas de ocultar o grito que se prende ao peito. Preferindo a vida virtual. Menos dolorosa. Menos vida.

Lágrimas escorreram por seu rosto. Não compreendia bem o porquê. No entanto, sabia de quem era a culpa: o coração estava suplantando a razão. Lembranças dolorosas foram ressuscitadas, entretanto, junto com elas a estranha sensação de liberdade, pois doeram e foram vencidas, portanto, de nada vale tanta proteção, esconder-se não é viver, concluiu.

— Boa noite. — Um jovem sentou ao seu lado e cumprimentou-a. Ela enxugou os olhos, envergonhada e respondeu de forma um pouco ríspida com objetivo de evitar a conversa.

— Desculpe-me ser invasivo — ele insistiu — mas, por que chora em uma noite tão bela?

— Nada não. Só estou pensando. — Cogitou levantar e ir embora, mas ficou.

— Há um pensador que diz que é impossível chorar e pensar ao mesmo tempo, pois cada lágrima derramada absorve um pensamento. — Ela suspirou já irritada, afinal era seu universo particular que estava sendo invadido. Falou:

— Desculpa, mas eu te conheço para ficar opinando na minha vida? — O jovem insistiu:

— Há um conto de Haruki Murakami que fala sobre um homem...

— Me desculpe, estou de saída. — Ela preparou-se para levantar, ele tocou-a levemente em seu braço e disse:

— Você já encontrou a pessoa que nasceu para você? — Ainda sentada ela riu:

— Isso não existe. — Com um sorriso aos lábios o rapaz começou a falar:

— Um homem passeava tranquilamente por Tóquio quando encontrou a garota 100% perfeita para ele. Ele teve a certeza disso ao vê-la. Sabia naquele exato momento que ele nasceu pra ela e ela pra ele. Ela não era a mais bonita, não chamava atenção, não era o tipo de mulher que ele sempre desejou levar pra cama. Porém, era a metade que faltava para completá-lo.

Laura pegou-se recostada no banco novamente, entretanto, o papo ainda não convecia:

— Ele foi falar com ela e se amaram. Felizes para sempre. — Ela ironizou.

— Não. Ele não abordou-a. Ela passou direto por ele, até trocaram olhares, mas a garota perfeita sumiu na multidão, nunca mais foi vista.

— Espera. Você me encontra chorando e pra me animar me conta uma história dessas? Ah vá!

— Ele teve medo, não sabia o que dizer. E deixou-a passar.

— Então merece ficar só, pela covardia! — Laura bradou.

— É aí que tá, vemos sempre a capa e esquecemos da profundidade dos sentimentos. Na mesma cidade décadas antes dois jovens adolescentes se encontraram. Foi um amor avassalador. Tão profundo que não tinham dúvidas de que eram verdadeiramente almas gêmeas. Completavam-se. Amavam-se intensamente. Entretanto, por uma idiotice resolveram testar esse amor. Era algo tão mágico que temiam ser precipitados. Dessa forma combinaram de se afastarem por um tempo, sem qualquer notícia um do outro; se fosse um amor pra vida inteira se encontrariam novamente, pensaram. Acontece que as famílias de ambos acabaram mudando de cidade e pra piorar, anos depois uma epidemia de febre deixou os dois em coma. A doença foi tão devastadora que fez com que perdessem completamente a memória. Graças à sorte sobreviveram e se recuperaram da doença, cresceram e reconstruíram suas vidas do zero, sem passado. Até que um dia se encontraram em uma rua de Tóquio. Ele teve a certeza de que amava àquela mulher mesmo sem conhecê-la. Ela quando olhou-o sentiu algo forte dentro dela. Instigando-a a conhecê-lo, a amá-lo. Porém, seguiram seus caminhos, pois eram apenas desconhecidos e amor a primeira vista era ilusão.

Laura ficou parada, o jovem deu um sorriso e falou:

— Não deixe a vida passar diante de seus olhos, Laura. — Levantou e foi caminhando.

Ela ficou tão perdida nos seus pensamentos que quando percebeu pulou do banco e gritou:

— Eiii! Espera como sabe meu nome? — Saiu correndo esbarrando nas pessoas até puxá-lo pelo braço. Ainda não tinha olhado direito para ele com vergonha dos olhos vermelhos do choro. Porém, paralisou e sorriu com aquele olhar.

— Me diga, como sabe meu nome, quem é você? — Ela falou em um quase sussurro. Ele segurou suas mãos, aproximou-se e respondeu em seu ouvido.

— Talvez eu seja o homem perfeito para você. Sua alma gêmea te despertando do transe da vida moderna.

Deu-lhe um beijo no rosto e foi saindo, ela em uma coragem que nunca tivera na vida correu, puxou-o e beijou-na boca de uma forma apaixonante, como se fossem velhos amantes.

Quando terminaram, o jovem simplesmente entrou em um taxi e foi embora. Laura novamente sentou-se no banco; primeiro suspirou com o acontecido, ainda estava em transe, porém depois chorou por retornar ao mesmo lugar. O frio apertou e ela agasalhou as mãos no casaco. Foi quando notou um papel em seu bolso. Sua face foi tomada de espanto. Era uma foto de quando tinha dezesseis anos, estava com sua turma de escola e lhe abraçando estava ele. Ricardo, lembrou o nome. Virou a foto e tinha um telefone com a inscrição:

“Laurinha, a amnésia acabou”.