Sobre meus contos

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Bons sonhos, papi!

A faca entrou com uma facilidade que ela não esperava. Tinha apenas 13 anos e não imaginava ter tamanha força. O sangue que escorreu sobre sua mão estava quente. Quase fraquejou quando ele começou a apertar seu pescoço, ela girou o punhal, a dor obrigou-o a largá-la e fez com que ele caísse com as costas no chão.
A menina levantou e sentou sobre o homem que agora empurrava seu intestino de volta pelo furo, o pavor estava no rosto dele, tentou gritar por socorro, entretanto, a arma transpassou sua garganta e furou o carpete, fazendo-o golfar sangue. Os olhos esbugalhados não fecharem-se para a morte deixando o cadáver com uma expressão de medo.

Ela chorava, e não sabia muito bem o motivo. Arrependimento não era; talvez fossem lágrimas de alívio, de liberdade.

Calmamente foi até a cômoda, pegou uma meia e limpou a lâmina. Dirigiu-se até o banheiro, tirou a camisola rasgada, tomou um longo banho e vestiu roupas velhas.

Voltou ao quarto e deitou-se em sua cama. O corpo estava caído ao lado e exalava um cheiro forte de sangue e mijo. Não demonstrando qualquer preocupação, fechou os olhos. Sabia as consequências que iria enfrentar quando amanhecesse e mesmo assim, sentia-se muito bem. Adormeceu como a muito não fazia, foi a noite mais tranquila que teve desde que sua mãe casou-se novamente há três anos, e que seu padrasto começou a fazer visitas noturnas ao seu leito.

Rolou para o lado e sussurrou sorrindo:
— Bons sonhos, papi!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Porquês – Baladas das Terras-de-Sempre


Se os gêiseres respiram vapores
Por beberem água;
Um dragão cospe fogo
Por que bebe lava?

Se os matuters são brancos
Pela influência do gelo
Por que os os homens de neve
Possuem pelos negros?

Se as Terras são de Sempre
Não tem começo nem fim?
Diga-me por que um fire
Não pode aprender sorrir?




Matuters – Leões gigantes de pelo branco que habitam o Reino Gélido
Homens de neve – Habitantes do Reino Gélido
Fire – Diminutivo de Sanfire, dinastia que governa o Império Flamejante
Para entender o universo onde esta canção está inserida, leia As Letras Históricas das Terras-de-Sempre

quinta-feira, 21 de março de 2013

O Terror de São Vicente – Part II



     — Está proibido até de passar perto da cela. — Disse o prior de minha Ordem Religiosa.

     — Mas, senhor. Os relatos que consegui podem ser importantes para o tribunal inquisitório.

    — Seus relatos são desnecessários. Já há provas o suficiente para condená-lo. — Respondeu severamente Pe. José de Maria, que depois aplacou sua ira e falou-me:

     — Luis, escute o que  digo. É extremamente perigoso escutar o que as forças do inimigo falam. Lembre-se que Henrique era um inquisidor, um dos melhores, chegou até a ser chamado de O Novo Torquemada, no entanto o contato com a Feiticeira Vermelha o corrompeu. Ela foi queimada, mas Henrique passou a servir unicamente às trevas. Sendo assim, não desobedeça mais minhas ordens para sua própria segurança.

     — Está certo, padre. Tem minha palavra.

     Retirei-me ao meu quarto. Foi uma noite terrível. Escutava as diferentes vozes de Henrique dentro da minha mente. Quando fechava os olhos eu ficava perdido em uma floresta, havia murmúrios na escuridão, no entanto, ninguém estava por perto. Acordei, mas os sussurros ainda estavam dentro da minha cabeça. Atormentando-me. Levantei e acendi uma vela, ajoelhei e passei a rezar. Não sei como, mas as chamas começaram a queimar os lençóis, tentei apagá-las, mais aumentaram. Corri para a porta; estava trancada mesmo sem chave. Uma voz ecoou em minha mente:

      Acordaste uma história e ela não repousará antes do fim. Estou esperando-o.

     As chamas intensificaram-se e minha mão pegou fogo. Gritei desesperadamente por socorro enquanto batia na porta. Alguém abriu-a e sai gritando lá de dentro. Quando criei coragem para olhar novamente para o quarto, estava tudo como antes. Não havia qualquer sinal de fogo.

     — Foi um sonho, Luís. Disse para não envolver-se com isso. — Disse-me Pe. José.
     — Mas, e a queimadura em minha mão?

     — Existem sonhos tão reais que perturbam nossa mente. Na agonia você queimou-se no fogo da vela.

     — Não acho que um vela seja capaz de causar um ferimento desses, padre. Não aquilo foi muito real. Pavorosamente real.

     — Não fique alimentando tais idéias ou será pior. Acordaste uma história e ela não repousará antes do fim. Espero-o hoje à noite.

     Vi o rosto de espanto dele quando pulei do confessionário. Aquela voz que escutei por último não era do padre. Sai correndo da igreja em direção da mata. Vaguei o dia inteiro. Não queria de forma alguma voltar para meu quarto. Algo dizia que tudo iria acontecer novamente. Sem que eu percebesse havia escurecido e os sons da floresta já eram ouvidos. Com muito medo comecei a andar rapidamente em direção da vila. Um vulto cruzou meu caminho. Tentei correr, mas fiquei paralisado, se gritei não saiu som. No escuro três vozes diferentes falaram em sincronia:

     — Estou esperando-o. Venha que tudo está pronto para que seu livro continue.

     — Mas, os guardas não deixarão que eu passe e meu livro foi confiscado.

     — Já disse, está tudo pronto. Apresse-se!

     Era um claro ato de loucura, mas o que é um pequeno ato para quem escutava vozes e conversava com sombras? Parti correndo pela trilha que levava à cela. Aproximei-me lentamente para que os soldados não me vissem. Não havia necessidade; estavam todos caídos em um sono profundo. Peguei as chaves no bolso de um dos guardas e entrei. Henrique tinha olhos ansiosos e sobre a mesa o livro esperava aberto. Libertei-o da mordaça e sentei. Notei que o livro tinha respingos de sangue, provavelmente da surra que o preso havia levado.

     — Que bom que veio. — Disse Henrique calmamente.

     — Por que fez aquilo comigo? — Mostrei a mão — Nunca lhe fiz nenhum mal.

     — Ficou com medo? Imagine o que sentirei quando estiver amarrado a uma fogueira? — Antes que eu respondesse ele ordenou: — Escreva! — Novamente seu olhar ficou perdido.

      — Aquele lugar era insuportável — disse Henrique em um som trêmulo — trazia ao meu coração toda a tristeza que já havia sentido, todo a dor pela qual eu passara. Meu desejo era voltar, mas minha missão não permitia covardes, por isso segui em frente.

     — Levava para minha proteção uma espada e uma arma de fogo com apenas um tiro. À medida que caminhava a mata ficava mais escura, mesmo sendo dia, e o silêncio perturbador. Caminhei cerca de uma hora quando finalmente escutei algo, era barulho de água, desviei o caminho e encontrei um rio. Prontamente bebi água e enchi o cantil, na borda colhi algumas frutas saborosas. Sentei-me para descansar um pouco. Acabei cochilando. Naquele local qualquer som era audível por menor que fosse; e acordei com a imprenssão de escutar uma voz. Levantei e fiquei atento. Era uma canção, uma linda e leve voz feminina preenchia todo o vazio da mata. Fui seguindo-a. Não entendia as palavras cantadas, mas possuíam uma beleza sedutora e envolvia-me completamente. Andei pela beira do rio, assustei-me quando um jovem índio passou correndo, corri e alcancei-o fazendo perguntas, mas ele repetia apenas uma palavra: — Uiara! Uiara! — Ele correu desesperadamente para o rio e foi avançando. A água estava chegando ao seu pescoço, no entanto, continuava gritando e indo rio adentro. Estranhamente também sentia-me impelido a segui-lo, cheguei a entrar na água, mas a visão do garoto desaparecendo nas águas profundas despertou-me. Pensei em esperar para ver se o índio escaparia, porém, percebi que se continuasse escutando aquela linda canção eu também perderia o controle de minhas ações. Fugi para o meio da floresta.

     Continuei caminhando pela trilha e sentia que era observado. Cada passo que eu dava uma folha seca desprendia-se de uma das árvores, mesmo elas estando todas esverdeadas. Comecei a escutar passadas seguindo-me. E a todo momento virava-me para todos os lados tentando ver alguma coisa. A floresta que já era escura envolvia-se cada vez mais em trevas, preparado, acendi uma tocha para iluminar o caminho, porém ela não foi de muito adianto. Nunca tinha visto aquilo, a escuridão naquela mata era densa, o fogo da tocha lutava contra um negrume poderoso que o envolvia. 

*
     Henrique ficou novamente pensativo e a discussão dentro de si foi bradada mais uma vez:

     — Eram trevas, não gosto das trevas. Nós somos as trevas! Preciso sair. Não, não há liberdade é tarde demais. Calem-se! Gosto de ser assim e nada mudará isso. As trevas assustam. Os fracos se assustam. Fui fraco! Fui forte, seu tolo!

 *
      Ele ficou novamente agitado, sacudia as correntes como se testasse sua força, fiquei em pé, pronto para fugir, mas dessa vez Henrique acalmou-se rapidamente e sentou. — Não tema jovem inquisidor, não há mal reservado para você; agora. — Tremi com aquelas palavras, porém fingi não ver a porta fechando sozinha e o som do trinco sendo travado. Precisava ficar tranqüilo se quisesse sair vivo daquela maldita cela, portanto, sentei e me preparei para continuar escrevendo. O Terror continuou falando como se nada houvesse acontecido.

 *

      As trevas eram densas, vi de longe uma silhueta, pensei em atirar, no entanto, sabia que tinha um único tiro, seria arriscar demais; aliás, não sabia se era a Feiticeira Vermelha. Da mesma forma que apareceu, sumiu. Uma voz feminina percorreu todas as árvores, parecia que a própria mata falava:

     — Venha jovem corajoso. Amo-o cada vez mais. Poucos foram tão ousados nesses últimos séculos.
     Um tremor percorreu minha espinha quando, uma luz ofuscou meus olhos e uma turba de morcegos voou em minha direção. Com a espada golpeei para todos os lados, algo totalmente ineficaz. Cai no chão protegendo o rosto e o silêncio imperou novamente. Os chupadores de sangue sumiram e uma risada veio de onde a luz foi emanada. Não seria intimidado; corri rapidamente naquela direção, acabei chegando em um ponto onde a estrada estreitava-se. Duas árvores retorcidas estavam no meio. Balançavam ao vento, notei que a chama da tocha não se mexia. Dei alguns passos para trás. Não sentia nenhum vento capaz de abalar poderosas árvores. Virei para retornar pela trilha, entretanto, a floresta fechou-se atrás de mim.

     — É ele? — Uma voz velha soou.

     — Sim, — outra respondeu atrás — ele quer nos transformar em fogueira e lançar nas chamas nossa amada senhora.

     Alguma coisa parecida com uma corda agarrou minha perna e arrastou-me, tive tempo de desembainhar a espada e cortar, outras vieram na direção, investi contra as árvores com a tocha e o fogo pareceu assustá-las. Havia folhas secas no chão e fiz rapidamente uma fogueira. Elas balançaram e desapareceram na escuridão. Eu estava cansado e com sono, porém, sabia que era impossível dormir em meio a tanta maldição. Prossegui pela trilha.

     A estrada levou-me a uma clareira. No meio do círculo quase deserto existia uma pequena casa. Uma luz vinda talvez de uma lareira iluminava as duas janelas. Não gritei. Meu coração sabia quem era o morador. Os anos de procura agora chegariam ao fim, e meu nome ficaria na história, estranhamente o medo abandonou-me, estava suando de tensão. Preparei a arma e avancei lentamente. Nuvens encobriam o céu, sem lua nem estrelas. A porta estava aberta, empurrei-a. A casa era simples e bem organizada. Tinha um fogão no canto, uma lareira e cadeiras confortáveis estavam espalhadas em torno de uma mesa, sobre ela um jarro com lindas flores. Não sei se era devido o cenário feio da floresta por onde caminhei durante o dia inteiro, mas a casa era bastante bonita. Um gato descansava ao lado das flores. Não um gato comum e nem preto, como eu esperava. Mas um lindo felino de pelos vermelhos e olhos grandes e verdes. Apontei a arma pare ele. Nunca confie no animal de estimação de uma feiticeira. Lentamente ele levantou, desceu e foi em direção da cama. Aconchegou-se sobre almofadas e miou. Alguém falou em minha mente:

     — Seja bem-vindo, Henrique, O Inquisidor.

     Preparei-me para atirar. O animal começou a brilhar e meio ao brilho sua silhueta foi mudando, de tanto andar na escuridão, a luz intensa era insurpotável. Quando a claridade cessou, o gato vermelho tinha transformado-se. Sobre a cama estava uma mulher nua. Seus cabelos eram encaracolados e de um vermelho intenso, os olhos verdes brilhavam com aquela tenra luz, sua pele branca emanava um perfume especial. Tinha lindos seios com grandes bicos. Por um bom tempo fiquei paralisado com aquela magnífica visão. Era totalmente o oposto do que eu esperava encontrar. Um fogo queimava intensamente dentro de mim. Ela sorriu, um sorriso esplêndido, apaixonante. Fez um gesto com a mão me chamando, depois a mão percorreu toda a extensão de suas maravilhosas coxas. Só hoje percebo a tolice que cometi. Joguei a arma no chão juntamente com o restante das coisas. Arranquei minha camisa e me aproximei. Seu perfume inebriava, não consegui parar de me aproximar. Não deixem-se enganar, não era à toa que consideravam-me o mais poderoso. Assim, consegui recuperar a concentração. Aproveitei a proximidade e apertei seu pescoço; a Feiticeira demonstrou uma centelha de medo, no entanto, sorriu lindamente, senti um aroma maravilhoso quando ela falou:

      — Sinta meu corpo ardente, Cavaleiro de Deus!

     Quando percebi, já abraçava-a, sentia um calor intenso, e beijei-a. Tudo escureceu.

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Terror de São Vicente – Parte I


      Estava muito nervoso, mãos suadas e um pouco trêmulas. Sentia uma presença terrível dentro daquela cela, havia ordens expressas dizendo que, de forma alguma, o prisioneiro deveria ser liberto das correntes que lhe prendiam pulsos e pernas, ou da mordaça de couro que tampava-lhe a boca. Mas, minha curiosidade foi maior.
     Depois de alguns dias conversando, levando comida e cuidando de seus ferimentos, O Terror, concordou em relatar suas memórias. Que historiador resistiria a tal tentação? Fui escondido até a prisão de pedra erguida no meio da mata. Eu era o único autorizado a passar pela guarda. Tinha por missão exorcizar a criatura maligna ali presa. Talvez eu tenha sido seduzido, talvez tenha sido um erro escutá-la, no entanto, não poderia perder a oportunidade de registrar o que diria o ser mais caçado pela inquisição.

     Sentado à minha frente estava o ex-padre Henrique Gonçalvez, lendário por ter entregado a Feiticeira Vermelha à fogueira, porém, mais conhecido ainda por ser um ex-inquisidor que entregou-se as forças malignas da feitiçaria. Era alto, rosto bonito e olhos calmos. Estava desnutrido e possuía muitos ferimentos pelo corpo. Fora capturado pelos homens de Martim Afonso próxima à capitania de São Vicente, dezenas morreram antes que finalmente conseguissem pará-lo. Finalmente O Terror, como era conhecido, estava completamente isolado e logo seria levado para responder ao recém-criado, Tribunal Inquisitório Português. Por esse motivo, precisava escrever tudo, para de alguma forma ajudar no processo.

     Coloquei um jarro de vinho sobre a mesa e um pouco de pão. Henrique comeu rapidamente e deu um longo gole no vinho, fechou os olhos, por um instante, até esqueceu que suas mãos e pés ainda estavam presos e sorriu, depois de alguns minutos retornou à realidade e sua face fechou-se de uma forma maligna como sempre esteve. Prontamente comecei, mesmo que com um certo medo, a escrever:

Colônia do Brazil do Reino de Portugal, décimo sexto ano do reinado de Sua Magestade Real, D. João III.

     Parei a pena e fiz a pergunta que iniciaria todo aquele relato:

     — Quem é você?

     Houve um silêncio terrível, por um momento não havia o som dos pássaros lá fora, o vento não balançava mais a pequena janela, minha própria respiração não era audível. Henrique, que até então permanecia com o olhar na mesa, fitou-me de uma forma profunda, estremeci por completo. Então seus olhos focaram-se no horizonte e aquela sensação finalmente passou. Suas palavras ecoaram duramente na pequena cela.

     — Quem sou eu? — Falou consigo mesmo. — Eu sou um inquisidor! Ou não sou? Espera, eu era um feiticeiro! Um feiticeiro inquisidor? Não, era um cavaleiro. Ou fui um mouro? Acho que os dois. Queime-os meu bom imperador! Que artista o mundo vai perder. Trinta moedas de prata? É um preço bom. —  Conversava com ele mesmo, mas em vozes diferentes, como se outros seres habitassem seu corpo, era apavorante. — Há muitas memórias dentro de mim! — Por fim, acalmou-se e parou de proferir coisas sem nexo. Passei a escrever tudo. Solenemente ele bradou:

      — Eu odeio essa terra. Nunca quis vir para esse lugar. Teria ficado muito bem em Aragão, ou mesmo com minha família em Lisboa, mas tinha uma missão a ser cumprida. E na flor de minha juventude achei-me capaz de obter sucesso aonde até o grande Torquemada falhara. Já lhe disse que odeio essa terra? Pequenas vilas cercadas por gigantescas matas, em seu interior, nativos servindo a deuses estranhos, cultuando árvores e seres dos rios. O cenário perfeito para que a Feiticeira Vermelha pudesse esconder-se e continuar com suas ações diabólicas. Havia muitas histórias sobre ela, diziam que vivia há séculos, alguns falavam até em milênios, particularmente nunca acreditei. Vi bruxas gritando em fogueiras e, sabia que não importava o pacto que possuíam, a morte abraçava-as igual a todos.

      — Alguns dizem que somos cruéis, todavia meu objetivo foi sempre convertê-las. Diante da ineficácia das tentativas passei a entregá-las, com leveza na consciência, às fogueiras do reino. Quem ousa chamar-me de cruel, nunca teve um de seus filhos levados para não serem mais encontrados, ou pior, para achar partes de seus corpos.

      — Seguimos as pistas da Feiticeira que me trouxe até o Novo Mundo. Seu rastros foram perdidos no Vice-reino do Brazil, dessa forma, mandaram um português em seu encalço. As suspeitas levaram-me à Ilha de Vera Cruz, vasculhei-a durante um bom tempo, porém nada encontrei. Naquela época, não havia muitos índios amistosos como hoje, entretanto, alguns estavam tão apavorados com uma mulher vermelha que surgia na escuridão e levava seus filhos, que se dispunham a tentar conversar com o homem branco. Entendendo pouca coisa fui entrando no território, até que cheguei ao que hoje seria a Capitania de Porto Seguro. Foi lá que tudo aconteceu.

     — Somava-se três anos que eu me arriscava por aquelas terras, escapando muitas vezes da morte, que vinha acompanhada de índios, de animais ou mesmo de doenças desconhecidas. Vocês hoje estão partilhando essa colônia, penetrando em seu território, caçando seus habitantes, mas não sabem o poder que existe aqui. Eu odeio esse lugar. Um poder que fortaleceu ainda mais o inimigo, um poder saído da própria terra, das árvores, dos rios, dos animais; acho que agora entendo por que os nativos lutam com furor.
*
     Fez-se silêncio na cela. O ar ficou pesado, Henrique fechou os olhos e outra vez começou a conversar com si mesmo em sons distintos:

     — Deveria ter matado ela enquanto pôde! Igual a Abel? Veja o que Tepes fez! Mate todos esses bebês inúteis! Gostaria que Roma tivesse um pescoço para que pudesse cortar sua cabeça com um só golpe! — As vozes calaram-se. Como se saísse de um transe, Henrique voltou aos relatos:

     — Três anos longe de minha casa em Aragão! Como sobrevivi todo esse tempo nessa colônia desolada? Por que os índios não me mataram? Não sei ao certo, às vezes me viram como um aliado já que declarei-me inimigo da Feiticeira que os atormentavam, ou talvez, tenham achado que eu era igual a ela. Não atacaram-me, também nunca me ajudaram.

     — Entrei ainda mais no território, já sabia muito sobre as plantas locais, sobre os animais e seus hábitos, por isso achava que conseguiria sobreviver naquelas florestas. Troquei a batina por roupas normais e a água benta por armas. Iniciei a caminhada; avançava para o leste quando tropecei em uma raiz e rolei penhasco abaixo. Tive sorte por sofrer apenas arranhões. Cai em uma mata completamente diferente. Era como se não fizesse parte daquele habitat. As árvores eram grandes e seus galhos e folhas tampavam quase por completo a luz do sol. Senti que algo perigoso habitava aquela região. E era justamente o que eu procurava.

     — Uma larga trilha cortava a floresta ao meio. E um silêncio temível imperava. Não escutava-se animais correndo ou rastejando e os pássaros silenciaram.  Apenas uma tristeza súbita no ar, como se a própria natureza estivesse lamentando por um mal que a afligia. Sentia como se centenas de olhos observassem cada passo que eu dava. —  Mexendo muito o pescoço de um lado para o outro, Henrique sussurrou:
     — Eu ainda sinto aqueles olhos! Ou são meus olhos? — Ele tremia. E com uma voz doce de mulher falou:

     — Sinta meu corpo ardente cavaleiro de Deus!

     Se não fosse pelas correntes ele teria pulado em meu pescoço. Seus olhos estavam arregalados e dava gritos que não sairiam de um humano. Agitava-se, os soldados invadiram a cela e um deles bateu na cabeça dele com o cabo do arcabuz, desmaiando-o.

De frente com o inimigo


Do lado de fora do quarto era possível escutar uma única voz e cada vez mais alta:

— Idiota! Sempre soube que me odiava, mas nunca imaginei que você fosse capaz de tamanha maldade! Capaz de atentar contra minha vida?
— Momento de desespero? Enxugue suas lágrimas, fracote, não vai conseguir enganar-me fingindo ter sentimentos. Seu destino é ficar só. Resta-lhe somente a solidão e a tristeza.
— Como ousa rir em uma hora dessas. Desgraçado! Arrancarei de seu rosto essa alegria!

Dentro do quarto sangue respinga por toda parte. No chão, restos do espelho quebrado por um soco.

Miniconto com 96 palavras

Alvoroço no Jardim do Éden

   
     Estava tranquilo, recostado em uma moita, mordicando uma bela e laranjadíssima cenoura, quando minhas grande orelhas dectetaram um possível tumulto. Mal levantei meus atentos olhos e um cervo quase esmagou-me ao saltar sobre as cinerárias ao meu lado. Foi nesse momento que vi a terrível confusão. Mamíferos, répteis, aves — até peixes! — corriam, voavam, nadavam ou rastejavam alucinados pela floresta. Vinham de todas as partes, um leão que vivia na margem do Pison passou imponente e ofegante, uma pantera que habitava perto do Ghion cruzou minha frente rápida como o vento, um pássaro da região do Tigre, voava baixo conversando com os seres terrestres. Não compreendia o que era aquela algazarra. Avistei uma lebre do Eufrates; corri e gritei:

     — Parente o que se passa?
     — Me siga, parente — respondeu — parece que Yahweh está trabalhando em mais uma grande obra.
   
      Então, como todos, corri o mais rápido que pude sem saber sequer para onde iria.
     Depois de algum tempo naquela louca maratona, finalmente chegamos. Estávamos próximos da Árvore da Vida, o silêncio imperava, na clareira consegui ver apenas o Homem e o Senhor. Mas, todos se entreolharam quando escutamos Adão exclamar em um grito de felicidade nunca ouvido:

     — Eis agora aqui, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem!

     Mulher. Eu nunca tinha visto criatura tão bela. Contemplava-mos boquiabertos a mais perfeita de todas as obras do criador. Feliz por ter presenciado esse momento sublime, fui saindo juntamente com os outros. Tive que dar um tapinha na serpente para que ela despertasse do transe. Entendia ela, era impossível não ficar hipnotizado.

Conto escrito em homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

terça-feira, 19 de março de 2013

Opinião: A Batalha do Apocalipse - Eduardo Spohr

Sinopse

Há muitos e muitos anos, há tantos anos quanto o número de estrelas no céu, o Paraíso Celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio, e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o juízo final.

Mas eis que chega o momento do Apocalipse, o tempo do ajuste de contas, o dia do despertar do Altíssimo. Único sobrevivente do expurgo, o líder dos renegados é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, a se juntar às suas legiões na batalha do Armagedom, o embate final entre Céu e o Inferno, a guerra que decidirá não só o destino do mundo, mas o futuro do universo.

Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano; das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval. A batalha do Apocalipse não é apenas uma viagem pela história humana, mas também uma jornada de conhecimento, um épico empolgante, cheio de lutas heroicas, magia, romance e suspense.


Minha opinião:

Uma escrita herética que não levarei ao índex. A Batalha do Apocalipse é simplesmente impressionante. A sacada do autor é sem igual em língua portuguesa. O personagem principal, Ablon, faz uma perfeita conexão de fatos históricos ou bíblicos (ou ambos), fazendo-nos passear pela história da humanidade e por diversas culturas.

A única problemática que vi no livro foi a disposição dos flashbacks com os acontecimentos presentes. Esse recurso que deveria ser usado para situar o leitor no universo criado por Spohr, acabaram quebrando o ritmo da leitura. Em um momento estamos vidrados com a guerra atual, e eis que aparece um acontecimento passado, mesmo sendo também empolgante, quebrando por completo o clímax. Talvez se o livro seguisse uma linha cronológica plena, apesar de torná-lo previsível, fosse mais empolgante.

Apesar de tudo, o final foi surpreendente.
Recomendo a obra.


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Jefferson Nóbrega

03:00 a.m

       Quando o silêncio passava a reinar em casa e as luzes eram apagadas eu começava a tremer. Tinha dez anos, ou tenho dez anos? Não me lembro muito bem. Mas, recordo das palavras do meu pai:

      — É uma coberta mágica. Sempre que estiver com medo se cubra com ela e todo o mal ficará longe.
      Acreditava e acredito nisso. Assim, quando o terror da noite começava, eu ficava todo encolhido na cama. Me cobria por completo, cuidando para que nenhuma fresta ficasse aberta.

      Todas as madrugadas às 3:00, escutava os passos no quarto, os estalos nas telhas, o ranger da porta; eu apertava o cobertor, fechava os olhos com força, até que finalmente conseguisse dormir. Aquela manta realmente possuía poder, pois os fantasmas não me tocavam mais, já não sentia suas mãos invisíveis em meu rosto. Dessa forma, passei um bom tempo com um pouco mais de segurança. Sempre tendo medo de dormir, embrulhado igual um pacote, não importando se era inverno ou verão.

      Então veio o dia da tragédia. O maldito dia em que minha mãe resolveu que meu protetor mágico estava imundo e deveria ser lavado; e a chuva impediu-o de secar até o anoitecer. Chorei. Tentei dormir com a coberta molhada, apanhei, fui para a cama dos meus pais e fui expulso, deixei a luz ligada e apagaram.

      Deu 00:00 e eu estava acordado, chorando baixinho. Às 01:00 levantei, corri até o quarto em busca da segurança dos braços de minha mãe e deparei-me com a porta trancada. Bati algumas vezes, chamei; não escutaram ou fingiram não escutar. Era 02:00 e eu estava com o edredom até a cabeça, fiquei por um longo tempo rolando de um lado para o outro, e quando finalmente abaixei o pano; vi o exato momento em que o relógio do mickey apontou às 03:00 da madrugada. Deitado, encolhido, eu tremia e rezava para que o novo pano tivesse a mesma magia do anterior. E, como temia o fantasma apareceu.

      Senti seu toque em minha perna, apertei mais meus olhos. A nova coberta foi arrancada com violência e puxei-a de volta, criei coragem e olhei o quarto e não havia ninguém. E, no meio do nada, algo me atacou. Começou a estrangular-me, lutei, tentei gritar por socorro, mas não ouve som. Minhas vistas foram escurecendo, as trevas que eu tanto temia arrastavam-me, a mão invisível apertava minha garganta cada vez mais forte, quis correr, no entanto, eu era um corpo inerte. Um corpo inerte sobre a cama. Um corpo inerte nos braços de uma mãe em prantos. Um corpo inerte em um caixão velado na sala.

      — Foi apneia do sono — comentou uma tia durante o velório.
      — Mas, como isso foi acontecer com uma criança? — Perguntou a vizinha em lágrimas.

      Não lembro dos detalhes daquele dia, nem de ter visto meus pais. A triste verdade é que, não consigo me recordar do rosto deles.

     Continuo no meu quarto, tentei muitas vezes, mas nunca consegui sair da casa. Fugir da escuridão e do Devorador é o que me restava. Ele aparecia nas sombras da madrugada, não tinha rosto, não tinha olhos, nada falava, um buscador de almas de olho na minha; por isso eu me agarrava com força ao meu antigo quarto.

      Depois de anos de abandono novos moradores chegaram na casa. Eles tinham um filho. Um garoto de sorte, pois a mãe dormia com ele.

      — Querida já tem um mês que estamos aqui. Ele tem que dormir sozinho para se acostumar.
      Fiquei com pena do menino ao ver sua cara de medo quando escutou o pai falando e tirando sua mãe do quarto. O coitado estava quase chorando.
      — É uma coberta mágica — disse o pai entregando-lhe uma manta — sempre que estiver com medo se cubra com ele e todo o mal ficará longe.

      Minha poderosa coberta! Era idêntica, tinha que ser ela! Eu a queria. Logo mais o devorador surgiria nas trevas e dessa vez eu estaria com ela para me proteger!

      Os pais saíram e o garotinho se encolheu embaixo do pano. A casa ficou em completo silêncio. Toquei em seus pés e ele pulou. Até eu me assustei. Ele não conseguiu ver-me. Tentei puxar o cobertor, mas a criança agarrou-se à peça e não queria soltar. Cobria a cabeça e tremia. No entanto, eu precisava do cobertor mágico. Fiquei cego de desejo. Quando dei por mim, apertava o pescoço de um menino inerte sobre a cama.

      No dia seguinte um bombeiro escrevia e falava:
      — Hora do óbito, 03:00.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Chapéu

Jefferson Nóbrega

     Pe. Bernardo em sua viagem pela Itália foi presenteado com um chapéu caríssimo, feito por encomenda, desde então, foram raros os momentos que tirou o belo acessório da cabeça.

    Certo dia, já tarde, voltava de ônibus para a paróquia quando um vento arrancou e levou pela janela, a única coisa que escondia sua precoce calvície. Gritou, mas o motorista não deu a mínima e seguiu em frente. Perdia assim seu precioso tesouro.

    O chapéu passou um tempo voando em círculo pela capital do país. Parou em um beco escuro onde uma mulher gritava por socorro, o estuprador fugia tranquilamente e em sua frieza, ainda teve tempo para comemorar a sorte de achar um belo chapéu no chão. O tarado entrou em outra viela, trocou de roupa para despistar a polícia, tirou o boné e colocou algo mais elegante. Assim, foi caminhando tranquilamente em direção de sua residência. Não andou muito. Foi reconhecido pela vítima que estava acompanhada de um grupo de populares, correu, o chapéu voou e gritos foram ouvidos.

    O dia amanheceu e uma multidão acompanhava a perícia de um corpo que havia sido encontrado, pelo que comentavam, fora espancado até a morte. Um morador de rua que esgueirava-se pela multidão acabou encontrando um lindo chapéu jogado. Pegou-o, sacudiu a poeira e sorrindo colocou-o na cabeça. Sentiu-se até mais importante. Desfilou metade do dia com seu novo penante fashion e depois dirigiu-se até a banca do Pereira. José Pereira, havia trabalhado vinte anos em uma empresa, teve alguns problemas de saúde e quando mais precisou foi demitido. Agora sobrevivia, aos trancos e barrancos, comprando e vendendo coisas usadas. Comprou o chapéu por cinco reais e em menos de dez minutos vendeu-o a um velhinho que passava pela calçada.

    O chapéu agora acompanhava o Sr. Francisco Notato, passando quase uma hora na fila do INSS e mais uma hora na fila preferencial do banco, sob olhares enraivecidos de pessoas que continuavam sentados nos mesmos lugares. Com a aposentadoria já no bolso,  o Sr. Francisco  dirigiu-se até a casa da filha para deixar a ajuda mensal. Foi embora, mas esqueceu o chapéu. Sorte dele ter partido cedo, do contrário teria presenciado, ao anoitecer, seu neto roubando as coisas de casa para trocar por crack. Nem o chapéu escapou. Pingos vermelhos passaram a sujar o precioso tecido italiano quando mais tarde, o traficante executou o adolescente por causa das dívidas.

    O corpo foi desovado naquela mesma madrugada, e lá ia o chapéu boiando no córrego. Quando o sol já estava reinante,  foi pego pela aba por um menino descalço, o pequenino brincava naquelas águas poluídas que cortavam a invasão onde morava. Feliz pelo achado, o garoto levou-o para seu barraco, deixou de molho no amaciante, e depois de lavado e seco deu ao seu pai como presente de aniversário. O velho José adorou, havia muito tempo que nada ganhava. No dia seguinte, levou o presente para protegê-lo do sol na obra onde estava fazendo um bico de pedreiro e pintor. Fez um ótimo trabalho, as paredes daquela paróquia nunca estiveram tão bonitas. O padre gostou tanto que além do pagamento deu-lhe uma cesta básica. O bom José agradecido, fez questão que o sacerdote aceitasse a única coisa que possuía, como lembrança da amizade que nascera, seu chapéu. Pe. Bernardo relutante concordou e ficou com o artigo.

     Imaginem o sorriso dele quando reconheceu pela marca que aquele era o chapéu que havia perdido há dias?

     Estava sujo, machucado, cheio de mazelas, mas nem por isso era descartável.

Sobre o blog

Sou um aprendiz de escritor. Um amante da literatura.

Várias histórias povoam minha mente, ocupam meus pensamentos. Vidas aprisionadas em universo particular que clamam por liberdade, que sonham com o papel. Nesse espaço esses personagens serão libertos.

Aqui será exposto além de meus contos, resenhas e comentários de livros. Se alguém quiser mandar um conto, publicarei com enorme prazer e com os devidos créditos.

Meu email de contato é: jeffersonnobrega@gmail.com

Jefferson Nóbrega

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ícaro e o Balão

Um arco-íris quase circular passeava. Em cores e chamas, o balão era uma linda imagem contracenando com o belo azul do céu. Ícaro, filho de Dédalo, foi torturado com tal visão e com a ajuda de algum herói, driblou Cérbero, viajando ao mundo dos vivos para realizar seu grande sonho. Sorria ao ver as pessoas pequenas lá embaixo. Gritava perguntas à Esfinge; gargalhava como nunca. Foi quando Tânato, no furor de sua ira, voou em sua direção arrancando-o lá de cima e arrastando-o novamente para os Campos de Elísios. Sentiu a mesma terrível sensação de quando Egeu o engoliu. E, novamente despencava de sua felicidade. Ícaro, implorou de todas as formas, mas não foi-lhe permitido ao menos ir ver a chegada de seus irmãos, homens-pássaros, que agora atravessavam o Aqueronte.

Miniconto inspirado na notícia: Queda de balão no Egito mata 18 turistas estrangeiros.

Miniconto com 104 palavras